Opinião
Espelho, espelho meu
Vivemos num mundo cheio de senões, de regrinhas, que tornam a vida das pessoas em prisões psicóticas, amarradas a imposições ditadas pela sociedade, criando barreiras e limites perturbadores. A idade é motivo de pânico, olhar-se no espelho é tortura. A mulherada, então, fica tão ensandecida que não percebe que aos 40 entra-se na idade do charme, da elegância, ficam mais sedutoras, poderosíssimas. Por que se ver no espelho e enxergar um espantalho na imagem refletida? Como se a vida tivesse que parar no tempo e não fosse um processo contínuo de mutação, evolução, amadurecimento pessoal. Jovens de 50 ficam estressados com a proximidade da terceira idade como se esse ápice não fosse a conquista da medalha de ouro na olimpíada da vida! Sessentões e setentões não morreram para os prazeres de viver, amam e são amados, transam, fazem juras de amor. As mulheres têm desejo, são ninjas na alcova, sentem orgasmo. Pode até não ter a mesma intensidade de anos atrás, mas sentem. Basta ser feliz com o amor de muitas bodas comemoradas ou livres e independentes. Importante é não se entregar ao ócio achando que o bom da vida não tem mais a mesma essência com o avançar dos tempos. Meu pai viveu, graças a Deus, por 92 anos, aposentou-se aos 62 como servidor público federal. Homem do interior, afeito ao trabalho e longas caminhadas por exigência do próprio ofício, idade e aposentadoria não foram motivos suficientes para acomodá-lo numa cadeira de balanço. Nem as dores articulares o impediram de suas tarefas domésticas. Do lar, minha mãe foi além, nunca se sentou à mesa antes de servir o marido e os quatro filhos. Estendeu seu poder de liderança para netos e bisnetos até os 94 anos quando o Alzheimer chegou e resistiu até pouco mais dos 97. Nunca deixou se vencer pelo tempo e pela idade. A juventude não é eterna e nem a velhice é o caos da vida e não há espaço para reverter o tempo. Para os estudiosos, a fonte da juventude chama-se mudança, nunca o idoso deve se deixar ficar escravo da repetição, opondo-se a novos comportamentos. Mudar da casa grande onde viveu com a família por décadas, ir para um ambiente menor, aconchegante, pode ser uma decisão rejuvenescedora. A gente se apega a lembranças resistindo às mudanças, apesar de mexer com o emocional pode ser um bálsamo para o mal da solidão vivida em enormes cômodos cheios de nostalgia. Sou um idoso que não se furta a tentar superar a dor das artroses, o incômodo das L4/L5; meus 60 minutos de caminhada diários são vício; as pedaladas de bike entre Ponta Verde e Pajuçara não dispenso. Vaidoso quando na fila dos idosos a moça do caixa pergunta: ?O senhor tem 60 anos?? O melhor ou pior da vida está na cabeça de cada um, exceto quando os males inesperados surgem e vão além da nossa capacidade orgânica de vencer o inimigo.