Opinião
Lugar e cor
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada ontem pelo IBGE, mostram que o Brasil tinha, em 2016, 11,8 milhões de analfabetos. Esse contingente representa 7,2% da população de 15 anos ou mais de idade, a chamada taxa de analfabetismo. Pelo conceito usado pelo órgão, analfabetas são pessoas que não sabem ler e escrever um bilhete simples. Dois aspectos devem ser destacados nessa pesquisa. O primeiro é a questão regional. Segundo o IBGE, o Nordeste apresentou a maior taxa de analfabetismo (14,8%), índice quase quatro vezes maior do que as taxas estimadas para o Sudeste (3,8%) e o Sul (3,6%). Em Alagoas, o índice é um pouco maior do que taxa da região. No Norte, a taxa foi 8,5% e no Centro-Oeste, 5,7%. O segundo aspecto é o fato de que a taxa de analfabetismo para as pessoas pretas ou pardas (9,9%) ☺? nomenclatura usada pelo IBGE ? foi mais que o dobro da observada entre as pessoas brancas (4,2%) em todas as regiões do País. Ainda considerando a cor ou raça, as diferenças no nível de instrução são significativas: enquanto 7,3% das pessoas brancas não tinham instrução, 14,7% das pessoas pretas ou pardas estavam nesse grupo. Situação inversa ocorreu no nível superior completo: 22,2% das pessoas brancas tinham esse nível de instrução, ao passo que entre as pretas ou pardas a proporção era de 8,8%. A pesquisa mostra, portanto, de forma inequívoca, a continuidade das diferenças regionais e a desigualdade por cor ou raça, ou seja, o analfabetismo tem cor e lugar. Para especialistas, essa situação ocorre porque o Brasil não tem políticas ou ações efetivas de combate ao analfabetismo de jovens e adultos. Além de a lacuna ser histórica, eles indicam que é preciso vontade política para diminuir as disparidades educacionais entre as regiões do País. Trata-se de uma herança que vem da época colonial que ainda resiste, mesmo com a evolução das últimas décadas, que garantiu, por exemplo, a universalização do ensino básico. É preciso reforçar as políticas públicos voltadas para os extratos da população que são público-alvo da Educação de Jovens e Adultos (EJA), como idosos, negros e pardos residentes em regiões de baixo desenvolvimento socioeconômico. O País não continuar a negar-lhes um direito tão básico e tão fundamental para o próprio futuro da Nação.