Opinião
Conversas de Santos
DOM EDVALDO G. AMARAL SDB (q) Livro curioso e ao mesmo tempo erudito, gostoso de ser lido, foi o que a Editora Vozes enviou como brinde de Natal aos bispos do Brasil. É o ?Diálogos entre Santos de Mármore?, escrito por Luigi Padovese, editado na Itália pelas ?Edizioni Piemme Spa? e trazido para o Brasil pelas Vozes. O autor, com muita criatividade e não pequena erudição patrística, imagina uma espécie de mesa redonda com os Santos, cujas estátuas, em número de 140, adornam, há quase quatro séculos, a colunata de Bernini na Praça de São Pedro, em frente à Basílica Vaticana. Criatividade, porque o autor começa citando as palavras de João Paulo II, no dia 1º de janeiro de 2000, sobre os santos: ?Os santos estão no meio de nós, pertencem à nossa família e nós à deles. Os santos são sinal de otimismo nas chances de cada um: dirijamo-nos a eles a fim de descobrir o santo que existe em nós?. E aí, Padovese imagina que naquela noite, quando a praça se esvaziou e o silêncio guardou o eco dos aplausos da multidão às palavras de exortação e estímulo do papa, ?começa um diálogo das 140 testemunhas imóveis do balcão, que durante o dia se limitam a observar e escutar, e é só em meio à noite, que fazem o balanço das coisas que viram e ouviram...? O livro contém muita erudição, porque, ao lado da interessante conversa fictícia dos santos de mármore, vêm inúmeros textos autênticos dos escritos dos santos padres e escritores da antigüidade, que o autor apresenta, mostrando toda sua atualidade e importância para os cristãos do terceiro milênio. Ao todo, são 62 santos que participam do diálogo criado por Padovese e iniciado por Inês, virgem romana, talvez do 3º século, que comenta as palavras do papa, afirmando que, na colunata, os santos não são meras figuras ornamentais, mas foram colocadas ali por ordem de Alexandre VII (1655-1667) para significar, numa espécie de abraço, a maternidade da Igreja que, através deles, atinge todos os homens. Inês é seguida por S. José, esposo de Maria, que fala do pouco espaço que os evangelhos lhe concederam e explica como ele saiu de cena porque, diz ele, no ambiente semita, ?um pai não pode nivelar-se com o filho e nem ser seu discípulo? e conclui, dizendo que a carteira de identidade de Cristo seria: ?Jesus, filho de José, o carpinteiro, que serve sem a pretensão de aparecer?. Pedro Nolasco, do século 12, leigo, ensina que a vida é bem despendida quando é gasta em favor dos outros e, a propósito das cruzadas, anuncia algo de palpitante atualidade para os dias de hoje: ?As guerras jamais serão santas, porque sempre são contra o ser humano?. João Crisóstomo (344-407) repetindo algumas de suas Homilias, que se conservam na Patrologia Grega do Migne, fala do respeito à tradição e da necessidade de ter modelos, não mitos, porque, diz ele, ?os modelos respeitam a liberdade e os mitos embriagam?. E refere-se ao seu modelo, o apóstolo Paulo. Um dos mais belos capítulos desse livro é o 5°, sobre o tema: ?O amor é um guindaste que eleva?, expressão de Gregório Magno, citada por S. Isabel, rainha de Portugal (1271-1336), que comenta: ?Quem entra na vida de alguém, entra para sempre, passa a fazer parte de sua história?. Capítulo interessante é aquele sobre ?As fraquezas dos santos?, com textos de Francisco Xavier (1506-1552), Maria Madalena de Pazzi (1566-1607), Inácio de Loiola (1491-1566), São Jerônimo (347-419), convertido e o maior biblista da história e o místico Bernardo de Claraval (1091-1153). Dão testemunho, ainda, Maria do Egito, de Alexandria, e Pelágia de Jerusalém, ambas do século 4º, ambas prostitutas convertidas. Alguns títulos dos capítulos nos mostram de forma sintética a riqueza desta preciosa coletânea da doutrina dos melhores escritores eclesiásticos da história da Igreja: ?O porquê da santidade: o desejo infinito de alegria ? Quem ama, não perde a esperança ? A porta da felicidade abre para exterior ? Ver Deus significa nunca saciar-se de desejá-lo ? O amor a Deus e ao próximo é um só?. Os capítulos finais, com o título ?Mensagens dos Santos no Início do Terceiro Milênio? são dirigidos às várias categorias na Igreja: bispos, presbíteros, papas, religiosos e leigos. Conclui o livro uma curiosa aparição do papa na janela de seus aposentos, ao raiar da manhã, dizendo que acompanhou todo o diálogo e prometendo uma Encíclica (?) sobre o tema: ?Os santos e santas de Deus aos seus irmãos e irmãs a caminho?... (q) É ARCEBISPO EMÉRITO DE MACEIÓ.