Opinião
Ovo da Serpente
EDUARDO BOMFIM (q) A grande luta da atualidade em diversos campos, político, teórico e ideológico, diz respeito ao problema do Estado. Por mais complexa que pareça, esta questão encontra-se intimamente ligada ao quadro mundial, muito especificamente à invasão anglo-americana contra o Iraque e às ameaças que estas duas potências estendem contra outras nações. A ONU, em uma atitude digna da sua criação, resistiu bravamente às pressões dos EUA para que cedesse à declaração de guerra. Prevaleceu o princípio de um dos seus artigos históricos, desgastado é verdade, mas vigente. Diz respeito à autodeterminação dos povos. O que os EUA e seu ignóbil aliado pretendem, é a primazia dos seus interesses de agressão, que as ?ações invasoras preventivas? tornem-se uma lei incontestável em todos os continentes. No entanto, a opinião pública mundial acha o contrário e toma as ruas em manifestações pela paz e contra as ações do império. Na tentativa desesperada de minimizar os efeitos tremendamente negativos da carnificina que promovem, os EUA começam a impor aos seus meios de comunicação a demissão dos melhores e consagrados correspondentes do seu país, que buscam uma cobertura minimamente imparcial do brutal ataque da ?coalizão?. Mas, se observarmos os anos noventa, esta guerra já existia através da economia política, da teoria do ?Estado Mínimo?, do ?fim da História?. Nela, embarcaram vários intelectuais da esquerda cooptados pelo poder e suas benesses. Para impor seus intentos, o governo norte-americano vem rasgando seus ?princípios democráticos?, utilizados largamente durante a batalha ideológica da guerra fria. Os últimos informes das estações de televisão americanas tornaram-se propaganda de guerra absurdamente parcial. Além disso, ameaçam artistas, cantores, intelectuais e, finalmente, demitem sumariamente dezenas de jornalistas sérios, a exemplo do famoso repórter da CNN. A propalada ?inviolável liberdade de expressão? foi para o espaço sideral e a verdade é uma das maiores vítimas desta guerra infame. Impõe na prática, a máxima de Goebels, ministro da propaganda da Alemanha nazista, de que ?é fundamental repetir uma mentira tantas vezes até que ela se torne uma verdade?. É preciso compreender que para eles não há mais nações. Apenas territórios a conquistar, não importa a justificativa. Desta forma, o sentido de povo, nação e especialmente do Estado Nacional, precisa e deve ser combatido. Especialmente os estados em países emergentes, únicos indutores de políticas públicas de desenvolvimento e planejamento estratégicos. Há um movimento por parte de personalidades conservadoras, arrotando arrogância, sinalizando regozijo com toda esta situação. Não se trata propriamente de uma novidade. Normalmente, elas hibernam durante anos, ruminando um incompreensível ódio ao povo, uma subserviência, ou um medo incontrolável, ao processo de autonomia nacional e de democracia social. Jamais defendem abertamente suas posições e atuam através de retóricas e sofismas. Não possuem a coragem necessária de declarar publicamente a satisfação pelo retorno do império da força em substituição aos preceitos mais avançados conquistados, arduamente, pela civilização durante os séculos. Esperam, ardentemente, que a serpente saia definitivamente do ovo. E ela não é outra coisa senão a intolerância política, racial, étnica, religiosa, ideológica. É a glorificação da força sobre a razão, a inteligência, a tolerância. Disto sabem todos, independente de credo e ideologia. Esta é a mensagem que o papa, apreensivo, procura divulgar com insistência cada vez maior. O povo do Iraque resiste tenazmente, muito mais que todos esperavam, em defesa da sua terra. Mas, todos vão percebendo que a ganância do poder do capital e dos novos tiranos é insaciável e nenhuma nação se encontra a salvo. A serpente está surgindo, mais uma vez. De 1939 a 1945, dezenas de milhões morreram, centenas de milhões ficaram mutilados, para derrotá-la. Ela tinha outros nomes: fascismo, nazismo, Hitler, Mussolini. O mundo enfrenta dramáticos desafios e vencerá mais uma vez. (q) É ADVOGADO