Opinião
N�meros lastim�veis
O documento ?Para Aquém da cidadania?, do Fórum Permanente Contra a Violência em Alagoas, no início da década de 90, já chamava a atenção para o fato de a vida começar, no Brasil, diante de violações dos direitos humanos e terminar na adolescência com a morte. E, concluía, destacando a luta pela sobrevivência como a maior ocupação da maioria das crianças que, aos 10-12 anos estavam no mercado de trabalho alternativo para sustentar a si próprias e à família, sem direito à escola, saúde, alimentação e lazer. Os autores do mesmo estudo também deploravam o aumento do extermínio de crianças e adolescentes no País. Em Alagoas, particularmente. Além de outros problemas, como a situação de cerca de 1.700 meninos e meninas vivendo nas ruas em Maceió. Quase 700 desses menores continuavam trabalhando nas ruas até a noite e os demais viviam em estado de completo abandono. Nessa época, tínhamos 30% da população infantil alagoana, na faixa de 7 a 14 anos fora da escola. E de cada 100 alunos que entravam na 1a série apenas 12 chegavam a 4a série. Como não bastassem estes números, já constrangedores, e outros que denunciavam as mais diversas formas de agressão praticadas contra esse segmento da sociedade, três crianças eram assassinadas por dia em praticamente todos os estados brasileiros e Alagoas aparecia ocupando o terceiro lugar no ranking nacional de extermínio de menores. Apesar de o País contar com uma das mais avançadas legislações do mundo nessa área, principalmente a partir da entrada em vigor da Constituição de 1988 e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), muita coisa falta ser feita para os resultados das políticas voltadas para a nossa população infanto-juvenil não serem lastimáveis. Há poucos dias, por exemplo, a opinião pública teve conhecimento de que estamos entre os estados com os piores índices de de-senvolvimento humano e suas crianças vivendo em condições as mais deploráveis. E ontem, o País inteiro começou a tomar conhecimento de que, só em 2002, foram registrados mais de 11 mil casos de violência contra crianças e adolescentes em Alagoas ? a maioria assassinatos. No rol das ocorrências que mais chocaram os responsáveis pelo levantamento estão as quatro chacinas ocorridas no ano passado, com mais de dez adolescentes mortos, os quais não teriam passagem pela polícia ou outros motivos que os levariam a ter suas vidas ceifadas dessa maneira. As instituições públicas e privadas, e toda a coletividade, devem buscar, urgentemente, os meios possíveis para mudar esta triste realidade. Para que o nosso Estado logo comece a ser destacado por avanços significativos também nesse setor. Esperamos que eles aconteçam com as novas discussões que estão sendo realizadas sobre os problemas relacionados ao crescimento da violência e da criminalidade no País e o interesse do governo federal de garantir maior volume de recursos ao Estado para o enfrentamento desses e outros desafios.