Opinião
Bebendo ensinamentos ancestrais
O tempo passa rápido... Recordo das muitas férias de janeiro, na casa de meus avôs maternos. Ali era tudo muito bom. O sorriso de alguns tinha gosto de filhós com mel de engenho; o abraço de outros trazia a delícia da carne de sol e costela de carneiro assados; a cortesia de todos me levava a pensar nos sucos de cajarana e tamarindo, enquanto o ronco das águas do rio Seridó representava felicidade. Realmente, períodos para serem lembrados. Como sempre mimado por familiares, sentia-me um príncipe, sem cuidados maiores ou preocupações com a vida. Dormia em rede, sentava no chão, adorava passear no coreto da praça e chegava a imaginar o não fazer nada, como uma das ocupações mais produtivas do ser humano. Meu avô Chiquinho era não apenas o esteio da família, como sobretudo um grande homem. Pai de oito filhos, seus anjos de candura ? como ele próprio um dia os definiu ?, sabia ser doce, embora severo, quando necessário. Montando seu alazão, cumpria o percurso entre a Fazenda Angicos e Caicó com a energia de alguém quarenta anos mais velho que eu, seu neto primogênito, parecendo-me um jovem quando comigo brincava, ou presenteava com guloseimas e revistas em quadrinhos, por ser sabedor de minhas predileções. Costumeiramente viajava sozinho para a propriedade de onde tirava o sustento da prole. Naquele sete de janeiro, como de costume, percorreu as terras áridas da sua região, onde o chão de terra era não somente vermelho e quente como o sol, mas também fértil, quando tratado corretamente... Ele acreditava sempre ter companhia, por perceber, por onde passava, a presença de preás, pássaros e peixes, habitantes tanto dos pés de Pereiro, quanto dos açudes que muito admirava. O dia fora como tantos outros. Já quase noite, porém, quando as estrelas se preparavam para brilhar, a vida esvaiu-se de seu corpo. Ele foi encontrado por funcionários da fazenda, debruçado em uma das janelas da casa grande, tendo por debaixo de si lápis e folha de papel. Estava a escrever um último recado para aqueles a quem tanto amou: esposa e filhos. Em 2018, já respiro o mundo pelo mesmo período de tempo vivido por meu avô, quando faleceu... Ele era, para mim, um símbolo de fortaleza e sabedoria. Nunca o considerei velho e, muito menos, imaginei perdê-lo tão cedo. Por este motivo ainda hoje imagino qual seria minha idade se não soubesse quantos anos já vivi. Ele se foi, não sem deixar como legado exemplos de comportamento que o mantém eternamente vivo. Otimista por índole, aquele sertanejo seridoense, com quem exulto parecer-me fisicamente, em suas inesquecíveis lições, como antevendo um dia quando tomaria por profissão a ciência da engenharia, deixava claro todo ser humano experimenta uma confluência de ideias bem diversas. Alguns optam por permanecerem presos a caminhos geometricamente delimitados, enquanto outros bebem os ensinamentos do horizonte, permitindo fluidez a pensamentos que os levem além das molduras das estradas, onde pessoas, quase sempre pessimistas, estão escondidas à espera que mãos de terceiros lhes ajudem a escrever um novo momento. Hoje, quarenta e três anos passados, procuro ser, para meus netos Arthur, meu rei; Beatriz, minha flor; Leo, meu céu; e Letícia, minha alegria, um pouco daquilo sempre representado por meu avô Chiquinho.