Opinião
Filme triste
RONALD MENDONÇA * Pacifistas militantes ou de ocasião costumam afirmar que todos perdem com a guerra. Não é verdade. Sem falar nos lucros da poderosa indústria de armamentos que se alimenta dessas carnificinas, um dos setores que mais florescem em tempos assim é o das comunicações. Poderosa arma de persuasão, a mídia televisiva ? sobretudo ela ? é veículo de desestabilização ou de convencimento, elevando ou detonando a moral de um exército ou de um povo. Entre redes inimigas trava-se um conflito paralelo quase tão cruel quanto o dos campos de batalha, com o detalhe de que, qualquer que seja o resultado final, dificilmente alguma delas sairá derrotada. Hoje o foco principal está dirigido para o Oriente Médio, palco de uma luta sabidamente ilegítima, desigual e, portanto, desonesta e covarde. Por tudo que tem sido publicado aqui na GAZETA e alhures, nada há a acrescentar a não ser comentar a tremenda cara-de-pau dos americanos que, não satisfeitos com a invasão ao território alheio, chegam ao cúmulo de achar ruim quando encontram resistência e/ou depósitos de armas e munições. O que eles queriam afinal? Entrar no país dos outros e serem recebidos com água de cheiro? Ironicamente, enquanto a fustigada capital iraquiana, prestes a capitular, encara uma luta sufocante e literalmente suicida, nosso País, segundo os experts dá sinais de reação, ensaiando respirar sem a ajuda dos aparelhos que, há longos meses, o prendiam a um leito de UTI. Reina, com efeito, clima de vitória. Não sei se o conflito no outro lado do mundo é o maior responsável, mas o fato é que o dólar está menos caro e a bolsa subiu. Coincidentemente, governo e oposição chegaram a um acordo na votação da proposta de emenda constitucional. Se o funcionalismo, entalado com 4% de aumento, está na moita, numa outra vertente houve consenso em relação ao valor do salário mínimo. Como dizem os astrólogos, essa ?conjunção de fatores? despertou credibilidade internacional, com descenso do volúvel ?risco Brasil? e providencial chegada de capital estrangeiro. Na verdade, dólar baixo e bolsas em alta não são suficientes para apaziguar o País. São duras as guerras em curso. Numa delas, tendo de um lado o ?crime organizado?, sob as ordens do ?general? Beira-Mar, o ?crime desorganizado?, apoiados, ambos, por manjadas figuras da sociedade (os de sempre, acrescidos de comerciantes inescrupulosos, donas de casa bandidas etc.); e do outro, a comunidade acuada tentando agarrar-se às barbas encanecidas dos poderes constituídos da nação. É nesse ambiente de insegurança por que passa o mundo inteiro que os jornais da cidade divulgam curiosa, notável e, certamente, profícua guerra particular, com direito a punhais e rasteiras, encabeçadas pelas nossas vitoriosas lideranças políticas. Em disputa, nada de petróleo. A briga é pelas prosaicas diretorias do Ibama, CBTU, Fundação de Saúde, Cais do Porto... Entre mortos e feridos..., já vi esses filmes antes. Várias vezes. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL