Opinião
Auribus lupum
MARCOS DAVI MELO* Sempre que se defrontava com uma situação de difícil controle, Terêncio exclamava: Auribus teneo lupum, ou ?Estou segurando o lobo pelas orelhas?, ?Domino mal o inimigo? (porque os lobos têm orelhas curtas), ?Estou em situação difícil?. Como lidar com os inimigos da sociedade, principalmente os mais recalcitrantes, tem motivado ações as mais variadas. Desde a eliminação pura e simples dos mais periculosos, aos desterros para local distante, uma opção dos impérios colonialistas de antanho. Os antigos romanos apreciavam enviar os criminosos ou adversários para as galés, onde premidos por intenso desgaste físico e má alimentação, sucumbiam em pouco tempo. Os franceses, além de contar com a afiada máquina do Dr. Guilhotin, desterravam os seus marginais para uma insalubre ilha situada no longínquo Caribe, onde a malária e os generalizados mal tratos se encarregavam de dizimar os degredados. Os ingleses os mandavam para a exótica Austrália e os portugueses os deportavam para a colônia de Vera Cruz, o além-mar de onde dificilmente retornavam para as civilidades lusitanas. Esta sempre foi uma questão complexa e emergente para a sociedade (Dumas a imortalizou em ?O Conde de Monte Cristo? e um filme chamado ?Pappillon?, com Dustin Hofman, retratou a ilha caribenha), a exigir uma solução prática, que implicava necessariamente em uma relação tipo ?servus a mandati? entre a colônia e a corte. Quando as cortes inglesa, francesa e portuguesa condenavam os seus piores criminosos, elas se livravam da escória, deportando-a para as lonjuras possíveis, preferencialmente com um oceano os separando. Demonstravam, assim, seu desprezo e descompromisso, não só com os meliantes, mas também com a colônia incivilizada e distante. A deportação do meliante Fernandinho Beira-Mar para Alagoas, como rito de passagem para o Piauí, ambos no Nordeste, segue a concepção consagrada nos tempos da Coroa portuguesa e do Brasil colônia servil, selvagem e incivilizado depósito do lixo português. Mesmo na Corte dos tempos atuais, seria impensável mandar o degredado para o sul maravilha: Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba. Mantê-lo em São Paulo ou Rio de Janeiro, jamais. Fazem parte do território da Corte. O Distrito Federal, natural convergência para criminosos deste porte, não foi sequer cogitado. Pode não ter nada a ver mas coaduna com o pensamento preconceituoso de Graziano. Despejam a escumalha aqui, na certeza de que jamais retornará para lá. Entre a Corte e nós, o Nordeste-colônia, não existe um oceano a nos separar, mas um imenso mar de desprezo e preconceito, tão arraigado que as mudanças na regência da Corte não conseguem arrefecê-los. (*) É MÉDICO