Opinião
O coreano e o Brasil
A partir do Consenso de Washington em 1980, os países, não exclusivamente os emergentes, foram induzidos ou forçados às orientações internacionais que difundiam o livre comércio como a solução definitiva, a ?maravilha curativa? para os imbróglios financeiros de várias nações do primeiro mundo, assim como a redenção definitiva aos ditos emergentes. Segundo o economista sul-coreano Ha-Joon Chang, hoje quando olhamos para os países ricos, em sua maioria, eles realmente o praticam e achamos que foi com essa receita e dessa maneira que se tornaram efetivamente ricos e se desenvolveram. Mas, olhando em retrospectiva, o que aconteceu foi exatamente o inverso, eles enriqueceram praticando o protecionismo privado e com as empresas estatais, diz Chang. E só a partir daí é que propugnaram o livre comércio, impondo-o aos demais. Ele lembra que a Inglaterra procurou forçar os Estados Unidos e a Alemanha à fórmula do livre comércio no século XIX. E afirma que foi dessa maneira que o Reino Unido tornou-se objetivamente rico. A Inglaterra, ao dizer que os demais países não podem usar o protecionismo, é como alguém que, após subir no topo da escada, chuta a escada para que os outros não possam usá-la novamente, afirma o sul-coreano. E foi exatamente com as políticas de proteção das suas economias, estatais e privadas, que os Estados Unidos com base nas orientações de Alexander Hamilton (1789-1795), Secretário do Tesouro dos EUA, a Alemanha no século XIX, Suécia, Coreia do Sul e Taiwan no século XX conseguiram o salto ao desenvolvimento. Chang fala que a política de austeridade, regra do capital financeiro global, vem sendo usada várias vezes no Brasil desde as décadas de 1980 e 1990 aos dias atuais. E cita Albert Einstein: a real definição de loucura é fazer a mesma coisa várias vezes e esperar resultados desejados, mas quando não acontecem culpam a realidade. A indústria de transformação já foi responsável por 35% da produção nacional, hoje é menos de 12%. O processo de desindustrialização no Brasil é o mais trágico da História entre as nações, pelas sucessivas abordagens neoliberais e da globalização financeira rentista, como agora na gestão Temer. Por isso a desorientação generalizada. Só o desenvolvimento econômico soberano pode trazer novos ventos promissores ao povo brasileiro.