Opinião
A aventura de crer, no meio da noite
Pensam alguns que a fé verdadeira nunca é assaltada pela dúvida, por períodos de profunda escuridão, de secura dos sentimentos e noite profunda do entendimento, que nos impede de sentir, de compreender, de articular a afirmação mais fundamental da nossa existência: ?Eu creio!? Todo crente é peregrino diante Daquele que, antes de ser Palavra, é Silêncio. Deus é Mistério infinito, Deus é Noite escura, pois que nos deixa cegos com Sua luminosidade, Deus é o Santo, o Separado, o Diverso de tudo o mais, radicalmente Incomparável! Deus é Aquele que Se revela escondendo-Se e Se esconde revelando-Se... Deus: como percebê-Lo, esquadrinhá-Lo, ter a pretensa soberba de compreendê-Lo, aEle, que tem mundo inteiro escondido na palma da Sua mão? Eis: estamos Nele, tudo está Nele: na palma da Sua mão! Assim, caminhar com o Senhor exige radical atitude de fé humilde e peregrina! Uma fé que não atravesse o deserto das perguntas muitas vezes sem resposta, uma profissão de fé que não experimente, por vezes, as pesadas noites do não sentir, do não saber, do não mais ter perspectiva, é uma fé que não foi suficientemente provada... Não conheceu o verdadeiro e tremendo cadinho que a faz amadurecer entre lágrimas, cansaços, lutas e procuras... Crer não é compreender tudo! Crer exige a tremenda é sempre desafiadora pobreza de colocar-se diante de um Deus que é Mistério, um Deus que não nos presta contas de Seus atos e Seus silêncios, porque já nos disse tudo e tudo de Si nos explicou na Cruz e na Ressurreição do Seu Filho. E, no entanto, crer é perguntar pelo Senhor, é sempre, de novo, repor a pergunta sobre Ele! Crer é procurá-Lo, por Ele ansiar, por Ele esperar, é antevê-Lo e entrevê-Lo em tudo, é divisar, de modo misterioso, Seus passos benditos, de modo que o coração teimoso e cansado advinha: ?Ele esteve aqui! Ele passou por aqui!? E tudo, de repente, torna-se bendito, só pela presença Dele, pela passagem Dele, pelos rastros Dele! Crer é teimar em viver assim: nômade, andarilho, peregrino, até compreender que procurar é já encontrá-Lo e encontrá-Lo é pôr-se sempre, de novo, a procurá-Lo! A fé é uma adesão ao Mistério, é um constante e sofrido pôr-se em marcha, como Abraão, pôr-se em saída, como Moisés... Vamos, peregrino, como eu! Vamos de novo, sempre de novo, sempre recomeçando...