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Opinião

Mertiolate que arde

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O que tem a ver os trotes aplicados nas universidades com as mulheres que não podem dirigir na Arábia Saudita? E o que isso tem a ver com o Time?s Up, movimento de mulheres que começou a divulgar casos de assédio sexual em Hollywood? Quando se trata de coisas bobas como fitas cassetes, listas telefônicas ou mapas de papel, brincamos de dividir o mundo em ?raiz e Nutella?. Achamos que as gerações que já nasceram na era do Spotify, celular e GPS não sabem o que é dificuldade. Desprezamos a tomada de três pinos e sentimos orgulho dos tantos choques que tomamos. Quando se trata de coisas importantes, como liberdade individual, agressões físicas ou assédio sexual, esse mesmo pensamento pode trazer implicações sociais gravíssimas. Pessoas pressionadas a conviver em ambientes opressores podem reagir de duas formas, lutar contra o sistema ou sucumbir a ele. Como desafiar o status quo sempre cobra um preço alto, a maioria termina por se adaptar. Após aceitarem seus destinos, porém, esses indivíduos podem ainda escolher dois caminhos bastante distintos. Alguns estudantes podem se submeter ao trote, mas não quererem replicá-lo depois, assim como algumas mulheres muçulmanas que passaram a vida toda de burca desejam secretamente que suas filhas não precisem delas. ?Eu não tive forças para confrontar o sistema, mas gostaria muito que ele mudasse?, muitos pensam assim. Outros tantos, porém, pesam o oposto. Submetidos a regras e normas hostis, muitos reagem desejando que as novas gerações passem pela mesmo sofrimento. É como se ter aprendido a resistir àquelas dificuldades fosse uma conquista pessoal, uma honra que teria fim se assim findassem as normas arcaicas. A essência do raciocínio é simples, se eu sofri, todos têm que sofrer. Esse tipo de pensamento é a base para um fenômeno tão comum quanto mal compreendido, o machismo feminino. Quando li a notícia de que artistas francesas estavam fazendo um manifesto contra o movimento antiassédio das artistas americanas, achei que era fake news. No fundo, era apenas a manifestação desse detalhe inusitado da psique humana. Todas tiveram que sofrer no mundo predatório do show business patriarcal. Enquanto as americanas tentam evitar que as novas gerações passem pelas mesmas humilhações, as francesas se acham meritórias por terem suportado o tranco e acham injusto que as iniciantes não tenham que sobreviver à mesma selva.

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