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Opinião

Uma alma sebosa

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O sujeito falava asneiras demais, supondo que os ouvidos alheios deviam estar sempre disponíveis para a suprema tortura de escutar o que não lhes diz respeito algum. Era um verdadeiro boquirroto, falando sem parar de si mesmo e contando vantagens exageradas sobre as conquistas que somente ele enxergava. Punha-se ao lado do primeiro incauto que lhe cruzasse o caminho e, sem lhe dar a chance sequer de respirar, já ia despejando uma carreta de bafejos com que a sorte o agraciou: o seu carro era o mais possante, a sua casa a mais confortável, o seu emprego o mais bem remunerado, a sua mulher a mais bonita, os seus filhos os mais inteligentes... Como num best-seller americano, nada na sua vida era pequeno ou comum, nada dava errado nem saía dos trilhos. E quando se ia ver mais a fundo, era tudo mera elucubração de uma mente totalmente distanciada da realidade. ?Muito arroto para pouca Coca-cola?, como dizem os amigos do meu Luís. Pobre de marré ? porque vagabundo e preguiçoso ?, não possuía nada de seu, mas andava pra cima e pra baixo no carro novo de um irmão mais velho, iludindo as moças casadoiras com o aceno de uma vida confortável que ele jamais poderia lhes oferecer. Ignorante, já que nunca lera nenhum livro, era tirado a intelectual, repetindo frases que ouvira na televisão, totalmente fora do contexto em que haviam sido pronunciadas. Metido a coisa, só dirigia a palavra aos aquinhoados com riqueza material, sequer cumprimentando os que moravam na mesma rua humilde em que ele fora criado. Farinha azeda de verdade, mala sem alça, alma sebosa que nunca soube edificar nada que prestasse. O que fez com rara competência foi somente mentir, mentir muito, mentir descaradamente, dando a quem não o conhecesse de perto a impressão de que chegava até a acreditar nas muitas inverdades que ele próprio inventava. Com o tempo, passou a servir de chacota, apontado em meio a sussurros quando desfilava de nariz empinado, sem dar um bom dia a ninguém, ajeitando os cabelos grudados com goma. De metido tornou-se ridículo, de boçal transformou-se numa figura quase folclórica, símbolo da petulância que não leva a lugar nenhum, exemplo da arrogância que evidencia pequenez de espírito. Findou-se tristemente, solitário e esquecido. Nasceu e viveu toda a existência na mesma cidadezinha, mas jamais praticou um ato nobre, nunca ajudou desinteressadamente a ninguém, sempre quis tirar vantagem de tudo e de todos. Saiu de cena sem fazer falta. Quando o seu caixão ia chegando perto do cemitério, um bêbado disse para alguém que lamentava o desaparecimento do sujeito: ?Guarde sua pena; pra que gastar vela boa com defunto ruim??.

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