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Opinião

Recolhendo os cacos

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Nunca vou esquecer. Quando meu único irmão, que era mais velho, casou, eu devia ter uns nove anos. Lembro que minha cunhada levou, entre seus pertences pessoais, um disco de vinil com o qual alguém lhe havia presenteado. Era de Rimsky-Korsakov ? o nome ficou em minha memória porque demorei bastante para soletrar. Quando o disco foi para a vitrola, foi uma decepção geral. Aquilo era música de defunto, porque era comum que nos dias de finados tocasse apenas música clássica no rádio. Em consequência, esse gênero musical era reconhecidamente triste e incompreensível para a maioria de nós. Como parte destes Brasis, unificados pelo analfabetismo, pela falta de cultura e enraizados na periferia ou nas regiões rurais desprivilegiadas de riqueza, sou um ser sobrevivente. Expatriado e desfigurado da minha ingenuidade, me tornei um espectro do que fui. Era puerilmente melhor do que sou. Depois que conheci a lei, conheci o pecado (romanos 7:7). Não são poucos os iguais a mim que perderam a fé nos homens de bem. Muitos trocam suas crenças pelo dinheiro, rapidinho, da mesma forma, desfigurados de sua ingenuidade. Porém, tolo é quem tenta enganar outro tolo. O Brasil de hoje tem a cara maquilada. Aqui ou alhures existe matuto esperto demais, falando de política com a mesma prática de quem trata uma bicheira no lombo do jumento. Recentemente, mandei minha filha insistir com a diretora da escola de meu neto para que esse repetisse o ano. Ela respondeu que era proibido pelo Ministério da Educação. A criança não pode repetir, mesmo não estando ainda alfabetizada, que era o caso. Perguntei a mim mesmo: O que será dessa geração que vive refém dessa lei? Para que o governo precisa desse contingente de analfabetos funcionais? Mas a razão subestima o que existe de melhor em cada um de nós: a nossa confiança. E pior do que perder a crença nos outros é perder em si mesmo. O conhecimento é o que liberta o homem de sua ignorância. O pecado original possui um viés lógico: se não houvesse a desobediência, o homem continuaria a ser apenas um animal sem livre arbítrio. E, finalmente, quantas orquestras e quantos músicos existem hoje nos mesmos Brasis que ignoravam, como eu, Rimsky-Korsakov? A Lei Rouanet, que permitiu a maioria destas ações, terminou por prevaricar também, em favor de alguns ídolos populares, até se tornar vilã nas redes sociais. Dessa forma, a cultura em 2018 recolhe os cacos e recomeça de pires na mão. Quem não conhece As Bachianas, de Villa Lobos, aprende fácil fácil Corpo Sensual, de Pablo Vittar, e outras cositas do gênero. É disso que o povo precisa, sobretudo num ano eleitoral. Aguardem os Showmícios!

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