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Opinião

Um País desigual

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O Brasil convive há muito tempo com a intolerância contra pobres, miseráveis, moradores de rua. Em alguns momentos, apelou-se para soluções extremas, como em 1963, no Rio de Janeiro. Naquela que ficou conhecida como a tragédia do rio da Guarda, mendigos foram recolhidos e atirados nas águas sob o pretexto de que a rainha da Inglaterra, que faria uma visita ao Brasil, não poderia contemplar tal ignominia. De lá para cá, a população que vive nas ruas aumentou, e, com isso, também ódio contra, principalmente nos últimos anos, quando um governo declaradamente popular comandou os destinos do País. Mas a abjeção não se restringe apenas a quem dorme nas calçadas; os mais pobres passaram a ser hostilizados pela ousadia de frequentar aeroportos, comprar eletrodomésticos e comer melhor, depois que programas de distribuição de renda foram instituídos. Os mais ricos resolveram lutar não só contra o governo, mas também contra essas ?regalias?. Daí a incitação ao terror, à perseguição, que resultaram em impeachment e condenação: era necessário punir os mentores desse absurdo. Há pouco, uma pesquisa mostrou que os cinco homens mais ricos do Brasil têm riqueza equivalente à metade da população mais pobre do país. Em 2017, o número de bilionários subiu. A fortuna equivale a 43,52% da riqueza da Nação. Já os pobres, pobres mesmo, têm apenas 2%; números que revelam a profunda desigualdade econômica nacional. A questão, contudo, não é apenas monetária, implica em abismo social e cultural. Então vamos manter distância de quem não pertence à nossa classe social, pensam alguns; um pensamento que acabou levando o Brasil a uma divisão não apenas ideológica. O pensamento político confunde-se com a intolerância, com a busca por um gesto elitizado, que inclui cores e sabores. Repercutiu a frase de uma jornalista da Globo, durante convenção do PSDB, dizendo que a massa também estava presente ali, só que era uma massa ?muito mais cheirosa?. Triste País que busca a divisão ao invés da união. As pessoas de bom senso não podem tolerar tais coisas. Em artigo publicado neste espaço há algumas semanas, afirmei que o Brasil que sairia das eleições deste ano seria uma incógnita, mas que confiava que a maioria da população era composta por pessoas justas e dignas, pobres, mas honradas. Sobre seus ombros recai a tarefa de fazer justiça e corrigir distorções. Dessa missão não podemos abrir mão, apesar dos olhares tortos e da hostilidade. Acreditar na paz é o que nos faz humanos.

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