Opinião
Barra de São Miguel: várias numa só
Em todas as partes do mundo existem formações geológicas, (nas desembocaduras de canais, estreitos ou rios), devido à acumulação de areia e cascalho, desenvolvendo o que se conhece como Barra... Os alagoanos possuem várias. Eu, em particular, apesar de conhecer inúmeras, sou apaixonado por uma aprendida a admirar décadas atrás: a Barra de São Miguel ? cidade tão fantástica, quanto sofrida. Fantástica, porque seus frequentadores não se cansam de olhar para recantos naturais e quedarem, de boca aberta, ante tantas belezas... Os arrecifes são presentes, brotando do ventre do oceano, como oferendas ao céu, e o firmamento, por sua vez, brilhante, através das estrelas, é como a alegria de um pássaro, sempre voando em busca de outro verão. Sofrida, por sentir-se uma amante solitária, nunca correspondida em seus sentimentos, sempre à espera de alguém capaz de fazê-la feliz. O lixo urbano, pouco recolhido, impregnando as vias públicas, representa o surto de abandono vivido pelo Balneário, sempre capaz de doar muito amor sem, contudo, ter a quem amar. Fantástica, pela formosura da Lagoa do Roteiro e das águas negras do Rio Niquim cujos encantos extrapolam palavras, quase sempre usadas como ilusão, embora incapazes de impressionar o mundo por não existirem pessoas dispostas a ouvi-las... Sofrida, por comprovar estes presentes de Deus sendo aos poucos assoreados, invadidos por espertos inquilinos. Ao notarem a terra não possuir dono, a maioria constata, entristecida, nem o rio ou a lagoa serem imortais, podendo um dia sucumbirem aos delírios insanos das atitudes criminosas de seus frequentadores. Fantástica, por, entre seus coqueiros e o mar existir um clima de amor e poesia, capaz de embevecer quem a visita, seja em busca de diversão, ou inspiração para melhor viver, quando, deitados no balanço de uma rede, mirando o horizonte, sentirem o tempo parar, saboreando uma água de coco para saciar a sede. Sofrida, porque, justo nos meses de maior movimentação, reina a insegurança pública, a ponto de ?flanelinhas?, chegarem cobrando trinta reais pela ?vigilância? de um veículo, até dos estacionados à porta de sua própria residência, isto sem falar nos assaltos a plena luz do dia amedrontando a todos? A Barra sofre porque acreditou. O importante, contudo, é a Barra de São Miguel continuar sendo única, bela e simples, como o fundo do Atlântico que foi feito por Deus e haverá de brilhar sempre para a alegria de muitos. Outro dia, com a maré baixa, aproveitei para deitar-me na areia, defronte à minha casa. Aos poucos, comecei a cavar com as próprias mãos, nelas vindo grudados muitos maçunins. Encantado, olhei para cima e soprei: as conchinhas foram caindo e nutri a esperança de, um dia, assistir a Barra de São Miguel ser bem tratada encontrando quem, finalmente, a dirija com o merecido carinho!