Opinião
A crian�a e a guerra
MILTON HÊNIO * Olho a televisão e vejo quantas cenas terríveis entristecem a humanidade. Vejo horrorizado quatro crianças iraquianas com os bracinhos levantados, como se estivessem se entregando aos soldados americanos. Em outra cena, uma linda garotinha chora copiosamente ao lado do corpo do pai, morto por um bombardeio recente. E muitas e muitas outras cenas degradantes. É claro que se no Iraque só tivesse plantação de cebola e milho, jamais o maluco do Bush mandaria seus tanques invadirem Bagdá e matarem Saddam, o que prova o in interesse pela vida humana. De fato, estamos vivendo uma fase atormentada de nossa história, onde a ONU não conseguiu manter sua autoridade e os Estados Unidos não deram bola ao seu poder de coordenador de todas as nações. Vamos ver se essa importante organização age da mesma forma, subserviente, com os países subdesenvolvidos. O fato desolador é que enquanto os Estados Unidos gastam 800 bilhões de dólares na compra de armas destruidoras e 6 bilhões de dólares por dia nessa ridículaguerra do Iraque, 11 milhõesde crianças morrem de fome no mundo e de doenças que poderiam ser evitadas se tivessem ajuda financeira dos países ricos. Segundo o relatório do UNICEF de 2002 sobre a Infância, 150 milhões de crianças estão desnutridas atualmente em nosso planeta e 2 milhões delas já morreram nos últimos 10 anos, em conseqüência de guerras e conflitos pelo ódio, principalmente no Oriente. Atualmente, 6 milhões de crianças se recuperam de lesões sofridas nesses últimos tempos de conflitos e confrontos odiosos. Mas é a vida. São os eternos mistérios que a gente não sabe explicar. A vida é uma jornada e seria ótimo que essa jornada fosse bem cumprida com um sorriso, com a paz, com a alegria. A mente infantil é por demais sensível aos agravos do ambiente ? físicos e psíquicos. De tal sorte que todas as cenas de pavor que uma guerra provoca na criança marcarão sua vida para sempre. São os mutilados da guerra, que crescerão e ficarão adultos temerosos e angustiados. Os nossos filhos e netos, com um simples ronco dos trovões, correm para nossas camas, onde se sentem seguros. Imaginem vocês essas crianças, frutos dessas guerras, como sofrem! A criança é simplicidade, ela gosta do vento, das flores, do canto dos pássaros, da chuva na vidraça, de jogar bola, de ser amada. Lembrei-me agora de uma pequena história: quatro velas ardiam silenciosamente numa sala. O silêncio no recinto era tão grande que foi possível escutar o diálogo que elas travavam entre si. Ligeiramente triste, a primeira vela disse: ?Eu sou a paz. O mundo quer a paz, mas brinca de guerra. Os povos não se entendem, as pessoas se agridem e matam por qualquer motivo ou ninharia. Esquecida, acho que vou me apagar neste instante...?. Numa voz carregada de melancolia, a segunda vela disse: ?Eu me chamo fé. Na verdade, sinto-me cada vez mais supérflua e marginalizada. São milhões e milhões de pessoas que já não querem mais nada comigo nem com Deus. Não faz sentido eu continuar queimando...?. Com voz sumida e falando bem devagar, a terceira vela disse: ?Eu sou o amor. Não tenho mais ânimo nem forças, atualmente, para queimar. O egoísmo manda e desmanda no planeta, no palco das nações, nos lares e nos corações?. E a terceira vela apagou-se também. Em meio àquela atmosfera sombria, de tristeza, um criança entrou na sala. Ao ver o melancólico panorama, começou a chorar. E a quarta vela, pressurosa, disse: ?Não tenha medo, linda menina. Ainda estou ardendo; podemos revitalizar minhas três colegas... que se apagaram de pura tristeza e desconsolo?. Rápida e sorridente, a criança apanhou a vela e reacendeu as três outras. Suave milagre: o recinto se iluminou amplamente, como em dia de festa. Portanto, caro leitor, que a luz da esperança e da fé, da fraternidade, jamais se apague em nossas vidas e em toda a humanidade. (*) É MÉDICO E-MAIL: [email protected]