Opinião
O Menino Treloso da Saúde
Em 14 de Setembro de 1929, nasce Alberto Vasconcellos Nogueira. De Seu Aloísio e de Dona Edith, o menino treloso da Saúde tinha a pele ensolarada e o gênio de todos os demais garotos da cidade juntos ? fato devidamente comprovado pela incrível quantidade de tonéis metálicos e barulhentos que outrora rodavam abaixo a madrugada da Ladeira da Catedral, no centro da cidade. Ele nos disse adeus no último dia 10 de janeiro e partiu para a terra de Papai do Céu, deixando cheios de saudades seus amigos, netos, genros, nora, filhos e irmã. Quem sentirá saudades do jeito único que o menino treloso entendia tão bem cada um de nós? Eu vou. Quantos sentirão falta daquela risada, que só ele dava, e que geralmente vinha acompanhada de um sorriso meio descabreado e, por tantas vezes, de um gole de whisky? Eu vou. E das idas à fazenda, nas quintas-feiras de manhã? Eu vou. E dos almoços de sexta? Eu vou. E da varanda de sábado? Eu vou. E da de domingo? Eu e a Rainha da Inglaterra vamos. Quantos sentirão falta do amigo Alberto Vasconcellos Nogueira, o menino treloso da Saúde? Eu vou. Tão novo, embarcou para o internato no Colégio São José, na fria e úmida Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Desbancou a engenharia na melhor universidade têxtil do mundo à sua época, em Massachusetts. Viveu história. Conheceu Dona Elza, amor de sua vida, cuja mão segurou desde a primeira vez, na Praia das Maçãs, até, literalmente, o último dia que o vi. Teve três filhos cariocas. Comandou a Fabrica da Saúde, que amava imensamente. Empregou tanta gente, avançou o litoral norte de Alagoas. Era industrial, engenheiro, tratorista, delegado, subdelegado e juiz. Era um coronel da pega, com o coração, ó, desse tamanho. Quantos tiveram o privilégio de trabalhar para o Doutor Alberto? Aposto que milhares. Aposto também que Doutor Alberto conhecia cada um por nome, sobrenome, apelido e, como o vovô tão entendia tão bem, caráter. Ensinou a todos nós, sem ressalva alguma, o que é certo e o que é errado. Sabia o certo e errado desde criança: os amigos conhecem bem o dia que ele saiu do Colégio São José, no Rio. Conhecem também o dia que ele voltou para lá, anos depois, e mostrou que ele, ao contrário do que diziam, construíra vida e família. Deixou um legado inegável para quem tocou, com leveza e alegria características, que só quem o conheceu e todos que o conheceram entendem. Um legado que corre nas veias dessa cidade e desse Estado e que está presente em cada batida do coração de cada um dos três filhos, de cada um dos seis netos, do bisneto e dos que levam, com muito orgulho, seu nome ? e dos que ainda vão levar. O legado de Seu Alberto continua na bondade que ele espalhou, nas segundas-terceiras chances que ele deu, nas pessoas que o viveram e na vida que ele deixou naquela quarta-feira de chuva. Nessas horas, Vô, você deve estar sentado em alguma varanda aí por cima. Se puder, mande um abraço para Seu Aloísio e Dona Edith, para Tio Fernando, Segismundo, Gildo, Silvio, Zezé, Dengoso, Celso, José Ricardo, Alberto Braga e para todos os seus amigos que encontrou por aí e peça a eles que façam um brinde em sua homenagem, porque aqui embaixo, ainda faremos muitos. Ao menino treloso da Saúde, meu avô, Alberto Vasconcellos Nogueira.