Opinião
A mãe dos muricienses
Era começo da década de 80, eu tinha por volta de 11 anos de idade. Meu pai, advogado militante, dispôs-se a patrocinar a defesa penal de um conterrâneo muriciense, desafiando o sindicato do crime que então imperava em Alagoas. Causa gratuita, como outras das dezenas que ele sempre abraçou. Iniciou-se, então, um verdadeiro martírio para a minha família: cartas apócrifas, telefonemas anônimos, recados ameaçadores: ?Ele vai morrer amanhã?; ?de domingo não passa?; ?podem encomendar o caixão?. Minha mãe apavorada, minha avó aflita, ambas tentando em vão ocultar de mim o que se passava, escondendo os exemplares da Gazeta de Alagoas, desligando a televisão na hora do noticiário, baixando o volume do rádio quando eu passava na sala. E eu, curioso e atento, lendo as notícias à sorrelfa, ouvindo os relatos dos meus amigos da escola, acompanhando os perigos no silêncio doloroso do meu coração inquieto. Foi então que eu corri pela primeira vez para os pés de Nossa Senhora da Graça, na igreja matriz de Murici. Ajoelhei-me diante da sua imagem e chorei, chorei como nunca havia chorado antes na minha infância, que até ali tinha sido somente de felicidade e de paz. Olhei para os seus olhos, peguei nas suas mãos espalmadas, toquei no seu manto sagrado e orei com todo o fervor da minha inocência. Pedi-lhe que protegesse papai dos seus inimigos, que minha mãe não ficasse viúva, que eu e minha irmã não nos tornássemos órfãos, que ela obtivesse do seu filho Jesus o amparo de que nós tanto necessitávamos. E, como num passe de mágica, toda a angústia da minha alma se dissipou, dando lugar a uma tranquilidade que me fez voltar para casa crente de que nenhum mal iria se abater sobre o nosso lar. Passados mais de 45 anos, cheguei até aqui convicto de que não foi vã a minha confiança, e cada vez mais reconheço-me devedor dos inúmeros benefícios que Maria Santíssima, mercê do seu coração materno, tem semeado ao longo da minha caminhada. Agora, novamente transcorre o novenário da nossa excelsa padroeira. Onde quer que haja um muriciense, ele vai dar um jeito de voltar à terra natal, ao menos numa das noites de festa, para louvar e agradecer a Deus pela protetora com que nós fomos agraciados. Em Murici, o novo ano só começa de verdade depois da procissão da santa, na primeira semana de fevereiro. Ela é a identidade que nos une, a crença que nos irmana, a força que nos impulsiona. É a nossa mãezinha, com quem temos intimidade, diante de quem ficamos inteiramente à vontade. Somos dela, ela é nossa; o mais nos virá por acréscimo.