loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
terça-feira, 28/07/2026 | Ano | Nº 6276
Maceió, AL
26° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

O rabugento Graciliano Ramos

Ouvir
Compartilhar

Há muitos anos, perguntei a meu irmão Fábio Lopes Magalhães sua opinião sobre um ensaio meu. Ele disse que o texto estava ótimo, só uma palavra o incomodava: o pronome ?cujo?. ?O ensaio está tão bom que não precisaria desse termo?, disse ele, expressando sua antipatia pelo tal vocábulo. Desde então, devo confessar, eu me policio no momento em que vou utilizá-lo. Sempre que o emprego numa oração ? gosto dele ? lembro-me do comentário desse meu leitor. Certa vez, escrevendo sobre a Aids para uma coluna de jornal, usei a palavra ?aidético? sete vezes por todo o texto. O editor daquele jornal a substituiu por outra: ?Soropositivo causa menos impacto?, justificou. Assim como alguns têm suas palavras preferidas (saudade, amor, Deus, paz e amizade estão entre as mais citadas), quase todo mundo tem uma de que não gosta (cujo, deveras, decerto e alhures se destacam entre as mais esquisitas). Por princípio, alguns escritores nunca se valem de palavrões (nem quando escrevem ficção), Guimarães Rosa não gostava do lugar-comum no vocabulário (tanto que tinha seu próprio linguajar); eu, em particular, não tenho antipatia por nenhum vocábulo, se bem que acho os mais eruditos, para a prosa, inúteis. O folclore literário nos conta que Graciliano Ramos chegou a expressar, com fervor, seu ódio pelo advérbio ?outrossim?. Tão certa quanto a importância de Graciliano para a literatura foi sua rabugice, principalmente com quem maltratava o idioma. Quando ele trabalhava como revisor do jornal Correio da Manhã, ficou enfurecido com o repórter que lhe entregara um texto com o intragável ?outrossim?. O malcriado revisor resmungou alguns palavrões e, por fim, rugiu: ?Outrossim é a puta que o pariu!? Essa história é narrada, com algumas variações no modo como isso se passou, por biógrafos de Graciliano e por pessoas de seu círculo de amizade. O saudoso poeta Lêdo Ivo contou o dia em que Graciliano pôs os olhos sobre um texto no qual certo autor, em tom de bajulação ao governo Vargas, assim escreveu: ?Mas, no entanto, contudo, todavia, o Estado Nacional...? O birrento Graciliano não custou a filho-da-puteá-lo por causa da sucessão de conjunções desnecessárias, ele ?fez uma alusão bastante desprimorosa à genitora daquele cientista político?, relatou o discreto Lêdo Ivo. Era comum ouvir todo tipo de xingamento do autor de Vidas Secas ao se deparar com palavras ou expressões pomposas no meio do texto. Logo urrava com quem se atrevesse a lhe mostrar pobreza na gramática: ?Cavalo!? Exigente com o bom uso da Língua Portuguesa, não menos irritadiço com o desrespeito às questões vernáculas, o Velho Graça se comportava como um cão raivoso da literatura, sempre pronto para usar toda a sua fúria em prol desse ideal. ?Mestre do idioma, não era como certos escritores que derrapam no português porque aprenderam a escrever de orelhada. Ele sabia teoria da língua, como um gramaticólogo?, confidenciou-nos o escritor Antonio Callado sobre o mais antipático (e mais genial) escritor alagoano.

Relacionadas