Opinião
Daniel Simon, médico, cidadão e o Brasil
Sexta-feira passada, à noitinha, levamos à última morada no Parque das Flores um excepcional colega e amigo dos tempos de juventude, exemplar médico radiologista e professor da Ufal: Daniel Simon. Aos 69 anos, Daniel descansou depois de uma ferrenha e duradoura luta contra uma insuficiência renal que o aprisionara a um leito de hemodiálise por vários e ingratos anos. Teresa, sua viúva (viúva , que coisa mais estranha, pois parece que foi ontem que adolescentes, éramos colegas e contemporâneos do Colégio Estadual Moreira e Silva, em seus tempos mais gloriosos...), e sua fiel companheira de adversidades gigantescas, inconsolável, mas equilibrada a duras penas, não o largava um só minuto em sua urna funerária. As duas filhas, que puderam estar junto, Juliana e Carol, embora igualmente aturdidas, mostravam também semelhante e dificílimo controle. Daniel Simon há muitos anos tinha indicação para fazer um transplante de rim, o que lhe proporcionaria imenso alívio ao libertá-lo das correntes da hemodiálise. O primeiro candidato a ser-lhe o doador de um órgão semelhante, referendado por todos os médicos que o assistiam, aqui e em outros centros maiores, foi um irmão, que voluntariamente se ofereceu como doador. Ele tinha todas as condições orgânicas que propiciariam o sucesso de um transplante deste tipo: a genética e outros imprescindíveis itens que condicionam o sucesso nestes casos. Mas Daniel recusou. Recusou por uma razão de fórum íntimo, que no cenário atual do Brasil ? onde o individualismo, o egoísmo e os interesses pessoais predominam inapelavelmente e esmagam qualquer atitude sincera de altruísmo ? seria e será absolutamente incompreendida pela maioria dos contemporâneos: Daniel não aceitava, nem aceitaria mutilar seu irmão, nem nenhum ser humano, só aceitaria um rim de um doador sem vida. O senso de ética e moral que o marcaram petreamente desde a mais impúbere adolescência se mantiveram intocáveis ferreamente até os seus últimos dias. Quando o abordava sobre a sua saga na hemodiálise, onde assistia filmes no computador e lia obras da literatura, respondia serenamente que estava fazendo o que precisava ser feito, e além do mais, dizia cordatamente, já estava no lucro, ?pois seu pai, o também respeitado médico e professor Roland Simon, falecera aos 58 anos?. Da nossa juventude, a dele vivida nas horas de folga na Praça Sinimbu, onde existia um coreto, eu no Parque Gonçalves Ledo, nos aproximava o gosto daquela época por Kafka, Sartre, Shopenhauer e os Beatles, uma de suas maiores paixões. Mario Quintana, que também apreciava muito música, fez um poema no qual dizia que queria ser recebido no céu por uma banda de anjinhos tocando com seus sovaquinhos suados no coreto de sua cidade, porque nada existia de mais sublime do que a música tocada no coreto de sua cidade. Daniel Simon foi recebido por um bando de anjinhos suados tocando os Beatles no coreto da Praça Sinimbu de sua juventude.