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Opinião

Desce um pano; sobe um pano

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Durante o período carnavalesco, velhas e antigas tradições nacionais foram mantidas: toneladas de ureia e creatinina, substâncias tóxicas contidas na urina, e que por si só exalam um odor dos mais desagradáveis, e que quando sobrecarregadas pelos metabólitos do álcool etílico, ficam ainda mais carregadas, foram despejadas em toneladas nas ruas do País de forma inclemente. No Carnaval do Recife e Olinda, onde estive mais uma vez, não foi diferente, embora fartíssima fosse a oferta de sanitários químicos. Todavia, acredito que pelas multidões que ocuparam o Galo da Madrugada, o Recife Antigo e as ladeiras de Olinda, esse não foi o maior problema: a não ser nos becos mais esquisitos da Marim dos Caetés, onde só se arrisca quem quer. Lá o problema maior foi o excesso de foliões e o trânsito sempre extremamente engarrafado para se chegar aos polos da folia. Mas no sul maravilha constata-se que a ureia pontificou tanto na megalópole paulista ? que finalmente acordou para o Carnaval e seus altíssimos potenciais de mobilizar a economia do setor de eventos ? como no Rio de Janeiro, onde as águas da Baía da Guanabara certamente não estão pra peixe. E contrariando uma também antiquíssima tradição deste período, quando os políticos espertos se misturam com os foliões e faturam mais prestígio, o governador e o prefeito cariocas se escafederam, mostrando que podem ser mais um problema do que uma solução para os seus muitos males... Desce o pano do teatro do carnaval, com os seus ganhos e os seus custos, distribuídos de forma desigual como quase tudo no País. Entre os que ganharam com o reinado de Momo, estão os que gostam da festa carnavalesca para brincar e conseguiram acesso a algum centro onde a festa é efetiva, ganharam os empresários diretamente ligados ao evento, e comerciantes, pequenos ou grandes que comercializaram os seus produtos durante as festas. Em Maceió, tivemos novamente as prévias carnavalescas com o retorno eficiente do Pinto da Madrugada atendendo a um anseio dos foliões. Pelo que soube, a cidade esteve com a sua capacidade hoteleira bem abastecida pelos que não gostam de Carnaval. O Carnaval pernambucano, a cada dia mais concorrido, certamente é não só o mais rico cultural e tradicionalmente, como mais seguro e menos violento do País. Desce o pano do teatro do Carnaval com suas variadas emoções, aonde todos vão conscientes de que viverão uma ilusão, uma utopia passageira, e sobe o pano do teatro das eleições 2018, onde as utopias à venda são oportunísticas, deploráveis, destruidoras da economia, da cidadania e da dignidade humanas. A urina despejada pelos foliões nas ruas no Carnaval é insignificante perante a devastação causada pelos maus políticos brasileiros. Não se pode exigir muito da população se os exemplos de cima são tão degradantes. Mesmo na utopia do carnaval, a Beija Flor mostrou que ninguém aguenta mais essa monstruosa safadeza nacional.

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