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Opinião

Modernidade contradit�ria

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HUMBERTO MARTINS * Quem conseguir moderar seus sentimentos de revolta contra a guerra que atinge em cheio o povo iraquiano e fizer uma avaliação do número de vítimas ? mortos e feridos ? chegará à conclusão de que algo de novo acontece em matéria de utilização de equipamentos e munições. O número de vítimas é relativamente mais baixo, se comparado ao que ocorria, no passado, nas ações militares. Na Segunda Guerra Mundial, para citar o exemplo mais importante, bombardeiros partidos da terra, mar e ar provocaram milhares de baixas. Os autores dessas trágicas proezas foram alemães ? contra poloneses, noruegueses, dinamarqueses, holandeses, belgas, franceses, ingleses, norte-americanos e soviéticos, em ataque contra alemães, italianos, italianos, japoneses e aliados de importância secundária do eixo nazi-fascista. Bombardeiros aéreos promovidos pelos alemães contra Varsóvia ? capital da Polônia -, Leningrado ? atual Volgogrado ? e Sebastopol, cidades importantes da então URSS, situadas respectivamente, na Rússia e Ucrânia - após o des-moronamento da União Soviética ? provocaram milhares de mortos. Da mesma maneira procederam ingleses e norte-americanos em seus ataques a cidades alemãs. Berlim, Hamburgo e Dresden, após incursões aéreas anglo-norte-americanas, tiveram mortos em número de 50 mil, em poucos dias. Naquela época ? fins da década de 30, início da década de 40 do século passado ? os armamentos eram muito mais simples e os foguetes estavam apenas engatinhando, inventados que foram pela Alemanha ? num programa chefiado pelo cientista Von Braun. Como explicar que as armas tenham se transformado em instrumentos muito mais poderosos, enquanto o número de mortos e feridos diminui? Conscientes de que não podem abrir mão da guerra para consolidar seus interesses econômicos e estratégicos, os Estados Unidos e Inglaterra tentam fazê-la da maneira menos estúpida. Ciosos de que cada morto a mais nas ações bélicas significa mais hostilidade da opinião pública, os comandos militares norte-americanos e ingleses treinam seus soldados sobre leis de guerra, inclusive com o objetivo de diminuir os sofrimentos dos não-combatentes. Os especialistas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos são constantemente consultados sobre objetivos de ataque; as Forças Armadas investem bilhões de dólares no desenvolvimento de armas de precisão, para que, em contra-partida, seja menor o número de vítimas. A mesma evolução técnológica que permite as nações economicamente poderosas como Estados Unidos e Inglaterra, terem armas de guerra cada vez mais temíveis, proporciona aos meios de comunicação a possibilidade de levar as cenas de guerra, em forma de imagens ao vivo para as telas de bilhões de telespectadores, no mundo inteiro. De transformar as cenas de guerra em flagrantes fotográficos que são estampados em intocáveis jornais e revistas. A sucessão de guerras nas últimas décadas - entre 1914 do século passado e os dias atuais -, localizadas ou não, gerou uma série de tratados que não freqüentemente violados, como ocorre agora com o ataque dos Estados Unidos e da Inglaterra, à revelia da Organização das Nações Unidas (ONU). São violados porque os interesses econômicos e estratégicos das grandes potências se sobrepõem à moral das leis internacionais. O emprego da tecnologia para fazer com que as guerras sejam executadas com o mínimo de vítimas e, conseqüentemente, com o menor alarido possível, é mais uma face de uma modernidade contraditória, que não traz a paz entre os povos. * É DESEMBARGADOR DO TJ/ALAGOAS

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