Opinião
Ainda tem jeito?
Anos atrás, no calor da empolgação juvenil, sentia certo fascínio pelos palanques da política e gostava de ver os agitadíssimos comícios da época. Multidões se aglomeravam na frente das carrocerias de velhos caminhões para aplaudirem os eloquentes impropérios dos candidatos contra os opositores. Não tinha trio elétrico nem cantores famosos pagos a preço de ouro, o show ficava por conta do foguetório. No interior, as disputas polarizavam entre os protagonistas do pleito que não competiam com ideias e propostas. Pelo contrário, os adversários eram inimigos pessoais cujo plano de governo vitorioso privilegiava os que possuíam os melhores ?cabos eleitorais? com expertise em rifles, revólver Taurus 38 e a famosa espingarda 12. Palmeira dos Índios, Santana do Ipanema, Pão de Açúcar, Mata Grande, Água Branca, Batalha e outras regiões do agreste e zona da mata eram famosas pelo ?potencial político? dos seus líderes coronéis. Heróis pelas ações humanitárias, pais da pobreza, os Lulas paz e amor naqueles idos de 1960, tempos em que imperava impunemente a lei do crime de mando. Hoje as armas são outras, prevalecem as mentiras, corrupção institucionalizada e programas assistencialistas aprimorados tendo como carro chefe o Bolsa Família, unificação de outros projetos de transferência de renda criados no governo FHC. Lula, sabiamente aperfeiçoou essa bandeira usando como marca poderosa nos seus dois mandatos de governante se transformando no mito venerado por milhões de seguidores. Aparentemente o clássico coronelismo alagoano já não mais existe no seu modelo primitivo, entretanto, as oligarquias continuam vivas em muitas regiões como em todo o Nordeste onde o poder econômico e a violência ditam normas e comandam a vontade dos 6,5 milhões de analfabetos (IBGE), além de outros milhões de ignorantes eleitorais. Entretanto, mesmo nos novos tempos, os crimes de clara essência política praticados à luz do dia no coração dos centros urbanos, dificilmente têm nomes dos poderosos mandantes revelados à sociedade, prevalece a lei do silêncio. Ler jornal e ouvir rádio é um hobby pessoal desde a adolescência. Por isso escutei, décadas atrás, entrevista de um famoso secretário de segurança referindo-se a um chefe político do interior, o cômico, se não fosse trágico depoimento: ?O deputado é um deus para seu povo e quer continuar assim. Quanto a seu temperamento explosivo, basta que ninguém ameace sua honra para não sentir as consequências?. O coronel era suspeito de mais um dos cruéis malfeitos contra quem ?ameaçou sua honra?. Já ouvimos falar, dezenas, centenas de vezes o velho chavão de que ?o Brasil tem jeito?. Sim, é preciso que acreditemos que tem jeito a partir da assepsia moral imposta pela santa Lava Jato e da nossa atitude como cidadão e eleitor. Mas, e os jovens que elegeram Pablo Vittar como a menina das suas fantasias musicais; os apaixonados pela funkeira Jojo Todynho; os 19% de pesquisados que dizem votar em Jair Bolsonaro e os 33% que apostam na volta do Lula. Será que eles acreditam no Brasil dos sonhos das pessoas normais?