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Opinião

As veredas de Guimarães Rosa

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Minha iniciação no mundo mágico de Guimarães Rosa não foi fácil. Devo confessar que foi até meio traumática. Tive contato, pela primeira vez, com o nome do escritor mineiro à época da minissérie produzida pela Rede Globo em 1985: a adaptação homônima do clássico rosiano Grande Sertão: Veredas. Foi a primeira minissérie à qual eu assisti completamente. Fiquei fascinado não só pela história e pela trama, mas também pelo cuidado com que essa filmagem foi tratada (muito bem-feita para os padrões da época). No elenco, estavam os astros (cada qual em sua melhor performance) Tarcísio Meira, na pele de Hermógenes; Tony Ramos, no papel do jagunço Riobaldo; Bruna Lombardi (estonteante, apesar da caracterização masculina e da forte maquiagem), interpretando Diadorim; e Rubens de Falco, vivendo Joca Ramiro... Destaque para a bela narração de Mário Lago. O enredo é originalíssimo: Riobaldo, chefe de bando, tem como principal objetivo vingar a morte de Joca Ramiro, assassinado num ato de traição. Para não ter a menor dúvida de que conseguiria a vingança, fez pacto com o diabo. Esse acordo entre o jagunço e o tinhoso permeia toda a história de tal modo a se duvidar se esse pacto demoníaco existiu mesmo ou só foi fruto da imaginação de Riobaldo. O melhor amigo de Riobaldo ? e colega de arma - é Diadorim, por quem sente amizade tão forte que às vezes se confunde com amor. Sentimento que deixa Riobaldo hesitante com os próprios valores ? os sexuais inclusive; afinal de contas como poderia um cabra macho do sertão se apaixonar por outro homem? No desfecho da história, desvenda-se a razão de tantos sentimentos anormais: quando Diadorim morre em duelo (matando ao mesmo tempo o traidor Hermógenes), descobre-se que ele, na realidade, é ?ela?, a moça Deodorina, filha de Joca Ramiro, disfarçada de homem. Ainda extasiado com a minissérie, não demorei a ler a obra-prima universal de Rosa. Queria logo saber se o livro seria tão interessante quanto a adaptação da TV. Não foi. O livro homônimo tem linguagem complicada para iniciante, é livro para iniciados, portanto minha decepção com aquele universo (ainda) ininteligível chegou-me antes da trigésima página. A cada dois parágrafos, eu tinha de parar a leitura e ir ao dicionário à procura de algum significado. Até aí, tudo bem (sou fanático por dicionários e o ato de pesquisar não me custa); a questão estava em procurar um vocábulo e não encontrá-lo, haja vista que Rosa é o maior neologista do idioma. Diante disso, desisti de entender as histórias do escritor e concentrei meu interesse literário em clássicos de outros autores. Tornei-me cego para as invencionices idiomáticas do autor mineiro. Rosa tem uma universalidade no texto tão profunda ? e tão verdadeira ? que deixa o leitor inexperiente meio confuso; mas, ao se passar pelo portal mágico das palavras rosianas, um novo mundo se abre, um mundo com palavras coloridas.

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