Opinião
Fé, cruz e lágrimas
Vivemos tempos em que a fé é exaltada como um instrumento para o sucesso e a vitória pessoal. Reduzir a fé em Deus a isso é uma exaltação do ego, em que Deus é apenas um mero coadjuvante. Deus não legitima sua presença e atuação em meu viver por meio de ?sinais e prodígios?. Nem valoriza minha fé pela crença em seu poder para realizar milagres. Na verdade, diz a Bíblia, essa fé até os demônios tem. E Jesus alerta que a fé que depende de sinais de Deus, é fé mal construída. E há outro alerta, no sentido de que tal fé pode ser ludibriada pelo demônio, que se apresenta como ?anjo de luz?, com sinais e prodígios, imitando a Deus, visando enganar os incautos. O apóstolo Paulo manifesta esta preocupação ao dizer: ?Assim como Eva foi enganada pelas mentiras da serpente, temo que a mente de vocês seja corrompida e vocês abandonem a devoção sincera e pura a Cristo. Porque vocês aceitam qualquer um que chega e anuncia um Jesus diferente daquele que nós anunciamos. E aceitam um espírito e um evangelho completamente diferentes do Espírito de Deus e do verdadeiro evangelho.? A legítima fé cristã é o crer que só de Deus vem a salvação por meio do Cristo crucificado por nossos pecados. Em lugar de uma fé triunfalista, que busca mais a realização de seus sonhos e o livrar-se da cruz a qualquer preço, Cristo e sua Igreja precisam de uma fé serena, calcada na humildade diante de Deus e do próximo, submissa à vontade de Deus e ativa no amor, que se dispõe a levar as cargas uns dos outros e a construir uma sociedade mais justa para todos. ?Ninguém tem maior amor do que este, de dar a sua própria vida em favor de seus amados?, diz Jesus. É esse amor que legitima a fé. Diz o apóstolo João que se você ama a Deus, a quem não vê, e não ama seu próximo com quem convive diariamente, então você ainda não sabe o que é o amor e sua fé não é legítima. Amar requer a crucificação de nossa natureza humana pecaminosa com seu egocentrismo. ?Quem quer me seguir?, diz Jesus, ?a si mesmo se negue, tome a cruz e me siga?. É na cruz de Cristo, no carregar a própria cruz e no ajudar o próximo a suportar a sua, que Deus escolhe revelar seu coração, seu poder e sua sabedoria a nós. Ao fragilizado apóstolo Paulo o Senhor não curou, apenas lhe disse: ?A minha graça te basta, pois na fraqueza percebes melhor o meu poder.? Ou seja: há bênção na cruz na medida em que nos torna carentes e dependentes da graça de Deus. Portanto, evitar ou querer se livrar da cruz a qualquer custo, como prova do amor de Deus, pode representar a crucificação e morte da verdade e da fé.