Opinião
Seu Moura
Somente agora eu soube que Seu Moura, meu dileto amigo, partiu do nosso convívio há mais de cinco meses. Após longa e dolorosa enfermidade, que ele suportou com o estoicismo e a resignação próprios dos verdadeiros cristãos, encerrou a sua caminhada terrena e seguiu viagem rumo à pátria espiritual, onde certamente já se encontra colhendo os frutos do bem que soube semear enquanto esteve entre nós. E essa notícia, embora surpreendente, não trouxe para o meu coração nenhum laivo de tristeza, mas antes um sentimento de gratidão a Deus por me haver concedido a graça de conviver com uma figura tão especial, um homem que realmente fez a diferença em nosso meio. Pai de família exemplar, cidadão preocupado com os destinos da sua terra, Seu Moura construiu uma carreira profissional de sucesso, à custa de muito trabalho e de muita determinação. Quando já se encontrava realizado, e tendo alcançado a maturidade etária e espiritual, resolveu desvencilhar-se do patrimônio material dignamente adquirido e passou a se dedicar, integralmente, à difusão do Evangelho de Jesus Cristo. Sem ter feito nenhum curso superior, possuía aquele ?saber de experiência feito? de que nos falara Camões, estimulado pelas muitas leituras que ele sempre fez, notadamente da filosofia e das religiões. Encontrou-se na doutrina espírita, e testemunhou com os seus próprios atos a célebre frase de Allan Kardec, para quem ?fora da caridade não há salvação?. Em um imóvel de sua propriedade, no bairro da Pitanguinha, edificou uma casa de orações que serviu de bálsamo para muitos corações açoitados pela dor, graças a abnegados colaboradores que, tocados por seu exemplo, uniram-se em torno desse nobre ideal. Devoto da Virgem Maria, possuía ali uma bela imagem sua, confiando-se sempre aos seus cuidados. E não tratou apenas dos males da alma de quem para lá se dirigia: eu vi com meus próprios olhos as dezenas de cadeiras de rodas, de medicamentos, de roupas e mantimentos, de cestas básicas e de todo tipo de ajuda que semanalmente eram ofertados aos menos favorecidos, sem distinção alguma. Quando alguém lhe elogiava a iniciativa, Seu Moura desconversava, visivelmente constrangido: ?É um mero dever, nada mais?. Fecho os olhos e posso vê-lo à minha frente, trajando roupas simples, alpercatas nos pés, óculos pousados na ponta do nariz e uns poucos cabelos assanhados pelo vento. Ouço-lhe a voz pausada e serena, sempre com palavras estimulantes e de incentivo, disciplinado e rigoroso no cumprimento dos seus deveres. Imagino que ele esteja assim no outro lado da vida, pronto para abraçar os novos compromissos que o Senhor lhe reservou.