Opinião
Armas e livros
Após mais um massacre numa escola, desta feita na Flórida, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teve a ?brilhante? ideia de sugerir que a solução para o problema seria fornecer armas aos professores e treina-los para enfrentar atiradores tresloucados ? um livro numa mão e uma pistola na outra. Diante da reação negativa recuou, mas só o fato de sugerir tal absurdo configura a imagem de um país belicista que em nenhum momento cogita a hipótese de alterar o artigo da Constituição, válido para o século XVIII, que garante ao cidadão portar armas. E não só isso: lá se pode comprar um fuzil como quem compra uma roupa. Tal facilidade tem servido de argumento para aqueles que defendem o fim do desarmamento no Brasil. Ao invés de livros, armas. Nossa realidade difere. Não temos massacres semanais, porém temos mortes diárias provocadas por balas perdidas, muitas ceifando vidas de estudantes que lutam por um futuro melhor, atingidos dentro das salas de aula enquanto tentam aprender que um país se faz com homens e livros, como diria Monteiro Lobato. No momento, não estamos investindo nem nos homens nem livros. O governo, parte da mídia e uma boa parcela da sociedade defendem uma alternativa militar para resolver o problema da violência no Brasil, abandonando a ideia de que a educação é o melhor caminho. As armas que estão nas mãos dos criminosos entram no nosso país, não apenas porque nossas fronteiras são fragilmente vigiadas, mas também porque o lobby da indústria armamentista é forte. Escrevi sobre o assunto há alguns meses aqui nesse espaço: ?Estima-se (os dados são sonegados pelo setor sob alegação de sigilo militar, mas na verdade podem esconder transações escusas) que o comércio internacional de armas movimente algo em torno de US$ 1,5 trilhão por ano ? segundo reportagem da revista IstoÉ Dinheiro. Tanto dinheiro assim corrompe pessoas, países, entranha-se na estrutura administrativa governamental e acaba por pôr em risco a sociedade. Há um esforço mundial no combate ao tráfico de drogas, contudo o mesmo não acontece com relação ao tráfico de armas?. Para resolver o problema das armas, recorre-se a mais armas. Donald Trump não é uma voz solitária, o que é lastimável. O Brasil ostenta número vergonhosos com relação aos assassinatos provocados por armas de fogo. Mesmo assim, não vemos manifestações nas ruas pedindo um maior empenho do governo para evitar que as armas cheguem nas mãos dos bandidos, muitos adolescentes ainda. A proposta é execução sumária, ninguém lembra dos livros. O que acontece nos Estados Unidos não deve servir de exemplo para ninguém. Devemos buscar nosso próprio caminho, e esse deve ser feito com lápis e papel, não com balas e fuzis.