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Opinião

Uma velha senhora

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Duas coisas foram determinantes para despertar em mim, na minha longínqua infância, o gosto pela leitura: os gibis e o jornal Gazeta de Alagoas. Dos primeiros falarei depois. Interessa-me agora a Gazeta, aproveitando o momento em que o matutino completa os seus 84 anos de circulação, eternizando o sonho que fez bater mais forte o coração do senador Arnon de Mello, um misto de político, escritor, jornalista e empresário que não teve medo de ousar nem de pensar além do seu tempo. Numa época em que as chamadas redes sociais dominam quase tudo, em que tantos apregoam que os meios eletrônicos hão de sepultar de vez a mídia impressa, é uma grata surpresa ver um jornal diário alcançar quase oito décadas e meia de atividade ininterrupta, renovando-se sem perder a sua essência, reinventando-se sem negar a sua própria identidade e revigorando-se sem abrir mão dos seus valores mais preciosos. Não lembro mais quem era, mas sei que havia alguém em Murici que todos os dias, montado numa bicicleta, ia entregar a Gazeta de Alagoas em minha casa. Quando eu voltava das aulas no Ginásio Nossa Senhora das Graças, antes mesmo de tirar a farda e tomar banho para o almoço, me esparramava no velho sofá vermelho, ávido para ler as notícias que mais me chamavam a atenção. A página policial, numa época de tanta violência em nosso Estado, era sempre a mais atraente, com as fotografias do mestre Pedro Farias. As crônicas de Luiz Renato de Paiva Lima, Antônio Miguel da Silva e Anilda Leão, tratando de coisas do cotidiano com graça e leveza. A coluna ?Vida sem retoque?, do grande Nunes Lima, que era a preferida da minha avó Izarele, e as charges do mesmo Nunes, com os seus bonecos narigudões e engraçados. A página social da Maria Cândida Palmeira, apresentando a mim, pobre matutinho da beira do Mundaú, a elegância das mulheres bonitas da capital. Era mesmo o mundo que se descortinava perante os meus olhos infantis, por meio da Gazeta. Jimmy Carter, Leonid Brejnev, Mao Tsé-Tung, Margareth Tatcher, Papa Paulo VI, Elvis Presley, o aiatolá Khomeini ? todos esses personagens eu vi pela primeira vez nas páginas do jornal que agora aniversaria, e que me deu verdadeiras aulas de história e de política. Sou um leitor à antiga, dos que gostam de pegar no papel, de sentir o cheiro da tinta, de largar o jornal aberto na página em que se deu uma pausa na leitura para em seguida retomá-la com a mesma satisfação. A Gazeta de Alagoas, essa velha senhora, continua proporcionando a mim ? como a milhares de outras pessoas ? esses momentos de deleite, trazendo-nos uma informação crível e convencendo-nos de que é possível praticar um jornalismo ético e responsável. Bastaria isso para que ela recebesse os nossos aplausos, como eu agora a aplaudo: de pé.

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