Opinião
Mais um degrau
O brutal assassinato da vereadora Marielle Franco e do seu motorista, Anderson Pedro Gomes, executados na noite de quarta-feira (14), no centro do Rio de Janeiro, gerou grande comoção e indignação em todo o País, com repercussão também no resto do mundo. Como destacou o jornal espanhol El País, a onda de violência que sacode o Rio subiu mais um degrau, até porque há todos os indícios de que se tratou de uma execução. Além disso, o crime ocorreu num momento em que a segurança pública do estado se encontra sob intervenção federal, com a presença das Forças Armadas. O caso de Marielle chama a atenção também porque difere da maioria dos homicídios registrados na cidade, em sua maioria resultado de enfrentamentos entre a polícia e criminosos, ou mesmo entre grupos de traficantes que disputam territórios. A vereadora é citada como uma das vozes mais críticas contra a intervenção federal na segurança pública do Rio e também costumava denunciar os excessos da polícia. Recentemente havia acusado policiais de serem excessivamente agressivos na busca de moradores de favelas controladas pelo tráfico. Negra, favelada, defensora dos direitos humanos, eleita pelo partido de esquerda com a quinta maior votação, Marielle era, na prática, porta-voz dos movimentos sociais e dos moradores das comunidades. Conseguiu vencer as condições adversas e graduou-se em ciências sociais, com mestrado em gestão pública. Seu assassinato reforça as estatísticas sobre a vulnerabilidade social e racial, num país em que jovens negros têm duas vezes mais chances de serem vítimas de homicídio. Também reforça o fato de que o Brasil é o país das Américas onde mais se matam defensores dos direitos humanos, segundo um relatório da Anistia Internacional. A execução de Marielle mostra que o círculo da violência no Rio de Janeiro está convicto de sua impunidade, pois escolheu como alvo uma pessoa de grande visibilidade. Espera-se que as autoridades promovam uma investigação rápida, transparente e que leve efetivamente à responsabilização dos criminosos. Ao mesmo tempo, que seu sacrifício sirva para fomentar um debate a respeito da forma como se combate a violência no Brasil, não apenas com a repressão policial, mas também, com a ocupação social. Caso contrário, continuaremos a enxugar gelo tingido de sangue.