Opinião
Quem matou Marielle?
Em outubro do ano passado o Ministro da Justiça Torquato Jardim fez uma declaração estarrecedora. Segundo ele, o comando da polícia militar no Rio de Janeiro decorria de ?acerto entre deputado estadual e o crime organizado?. Foi além, afirmando que ?Comandantes de batalhão são sócios do crime? e que o governador e seu secretário de segurança não tinham o comando da PM. A reação foi imediata. Autoridades fluminenses fizeram duras críticas públicas, chegando a chamá-lo de insano, interpelaram-no no STF e o convocaram para dar explicações na Assembleia do Estado (Alerj). Dois dias depois, o ministro teve a chance de recuar. Abordado durante um encontro com Carmen Lúcia, manteve sua posição: ?Sobre o Rio de Janeiro... já falei o que tinha que falar?. A tropa de choque que se ergueu contra Jardim era encabeçada pela improvável dupla de deputados Flávio Bolsonaro (PSL) e Paulo Ramos (Psol), além de Marta Rocha, presidente da Comissão de Segurança da Alerj, que tem 30 anos de atuação como delegada e já havia chefiado a polícia civil. O grande comandante da reação, contudo, foi o presidente da Alerj, Jorge Picciani. Quinze dias após o teatrinho orquestrado por suas excelências estaduais, porém, Picciani foi preso na operação Cadeia Velha, que a PGR classificou como um ?monumental esquema de corrupção?. Dois dias depois, a Alerj se reuniu e revogou a prisão do deputado numa votação por ampla maioria. Resta pouca dúvida de que a intervenção no Rio envolve grandes quantidades de marketing eleitoral (não custa lembrar que Temer nomeou ministro o filho de Jorge Picciani) e que Torquato Jardim não é nenhum santo. Tanto que a primeira ação do novo Ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, foi trocar o controverso diretor da PF nomeado por Jardim. Mas para escrever certo, às vezes, são necessárias canetas tortas. Os traficantes no morro defendem seu negócio com barricadas e fuzis. Quem matou Marielle queria defender seus negócios nos gabinetes e batalhões. Se trata de outro tipo de criminoso. Não se sabe quem matou a deputada, mas quem foi além da decrepita disputa ideológica e das fake news sabe, ao menos, para quem foi o recado. Nunca ouviu falar de Luís Claudio Laviano e Rivaldo Barbosa? Talvez o problema seja suas fontes de informação. Esqueça as redes sociais e o Whatsapp, corra de volta para a imprensa tradicional.