Opinião
A performática artística como derradeira vanguarda
Apesar de ter sido introduzida às artes visuais nos idos de 1960, as performances sempre fizeram parte do mundo teatral, desde os primórdios da civilização. A contar com os rituais religiosos de sacrifícios, nas danças e nas cenas representativas das culturas de cada povo. E isto inclui fantasias de peles de animais, crânios e ossos humanos como máscaras e adornos. Mesmo no mundo contemporâneo, esta arte continuou fazendo parte do ritualismo das mais diversas religiões. Lembro que por volta de 2002 realizei uma palestra com o tema Como entender a Arte Contemporânea. Aconteceu no auditório do Palácio do Comércio, onde, pela primeira vez levantei uma questão sobre o emprego da palavra ?moderno? como vanguarda. E apresentei uma a experiência da pedra lascada e da pedra polida. No início o homem primitivo entalhou a pedra para fazer um machado e no dia seguinte ele percebeu que poderia polir. E esse resultado era moderno. Isto porque o vocábulo moderno se constitui do prefixo modus (maneira) hodierno (atual). Ou seja, o machado polido era o resultado do processo de modernização ou atualização do antigo. Apresentei algumas ideias que nunca perderam este aspecto moderno, mesmo com o passar dos anos. Um exemplo era o desenho popular de uma vulva, desenhado nas paredes de banheiros pelos adolescentes. Era simplesmente, um triângulo, marcado ao centro por um ponto e contornado por pequenos traços. Ninguém até hoje criou algo tão moderno. Parecido com o caso da Cafeteira Italiana a vapor Moka, criada em 1933 pelo inventor Luigi de Ponti, cuja empresa Bialetti continua a produzi-la até hoje, no mesmo design. Voltando ao tema principal: a performance, a palestra sobre Arte Contemporânea também tinha uma função de mostrar ao público a abrangência no campo das artes visuais, ou seja, aquilo que poderia ser considerado como arte. Foi nesta ocasião, que sem o público saber, eu havia preparado um cortejo formado por uma banda de pífanos e uma jovem, bem simplória, carregando, ao invés de um santo sufocado de fitas de todas as cores, como é comum, ainda hoje em cidades do interior, para angariar esmolas, coloquei um celular dentro de um oratório, todo amarrado de fitas de todas as cores. O celular, naquela época, já representava o objeto de consumo mais desejado pela sociedade, mesmo servindo apenas para telefonar. Lamentavelmente, a arte performática tem se distanciado de seu objetivo, de estimular o pensamento humano. Ao contrário, como uma derradeira vanguarda, caminha para espetacularização midiática, em benefício do artista e não da arte, razão da obviedade dos resultados.