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Machado de Assis e Jim Morrison

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Machado de Assis poderia ter sido músico. Faltou talento. Mas sua paixão pela música foi tão grande que ele fez questão de evidenciá-la por toda a sua obra literária. No romance Memorial de Aires (último livro de Machado, publicado em julho de 1908, dois meses e meio antes de sua morte), num trecho tipicamente memorialista, ele se aproveita do personagem Conselheiro Aires para expressar sua fixação pela música: ?Como eu ainda gosto de música! (...). A música foi sempre uma das minhas inclinações, e, se não fosse temer o poético e acaso o patético, diria que é hoje uma de minhas saudades. Se a tivesse aprendido, tocaria agora ou comporia, quem sabe?? O mundo pode ter perdido um músico, mas ganhou o escritor. Acho que existe uma relação estreita entre essas duas artes ? a literatura e a música. Em geral, todo literato é próximo da música; da mesma forma, todo bom músico possui a cabeça voltada para o mundo da ficção. O caso mais emblemático de músico que só sossegou quando lançara um livro foi Jim Morrison, líder do grupo The Doors. O artista chegou ao estrelato mundial já no primeiro álbum da banda. Sua voz grave (e ao mesmo tempo agressiva) chamou a atenção de todos pelo timbre único ? tão marcante e arrebatador quanto o de Elvis Presley e o de Frank Sinatra. Morrison traduziu as loucuras do subconsciente e colocou-as, com muita propriedade, nos maiores clássicos do rock. O músico foi chamado de o Saldador Dalí do mundo musical, justa comparação entre dois gênios. Em 1967, o grupo The Doors lança seu álbum de estreia. O reconhecimento do poder poético de Jim Morrison foi instantâneo. Público e crítica ficaram extasiados com a capacidade dele de traduzir não só as loucuras do subconsciente, mas também de levar à luz os desejos mais escabrosos do ser humano ? tudo isso sob uma performance teatral digna do maior representante dionisíaco do cenário musical. Com variações de estilos que vão do jazz ao flamenco, passando pelo blues, Morrison pintou, com a força da poesia, as cores mais fortes do movimento psicodélico. Break On Through (To The Other Side) faz referência à liberdade de pensamento; a variação rítmica em Soul Kitchen dá sustento ao grave belíssimo do cantor; gosto de Twentieth Century Fox (acordes simples para a explosão vocal). Light My Fire é a canção mais conhecida do grupo (e que o levou às paradas de sucesso), aqui a voz de Morrison parece suave e poderosa. I Looked At You é o rock de estrutura tradicional do disco. A preciosidade que fecha o álbum é The End, o filé mignon desse trabalho. A canção faz jus à fama de louco de Morrison: um poema edipiano, com exaltação à luxúria e à morte. O teor apocalíptico da música serviria como padrão para Morrison desdobrar outras letras com a mesma natureza sombria. Apesar do inegável prestígio alcançado já nesse primeiro álbum, o poeta Jim Morrison só se considerou um artista completo quando conseguiu lançar, pouco tempo antes de morrer, seu livro de poesias. Essa associação entre música e literatura é característica forte entre artistas, independente de época ou estilo.

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