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Mestre Graça sessenta e cinco anos depois

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Algumas pessoas nascem para brilhar. Graciliano Ramos foi uma delas. Nasceu em Quebrangulo, poderia ter passado a vida como apenas mais um cidadão, viciado em cigarros, perambulando pela feira e sentado à beira do rio buscando pescado para alimentar-se. Contudo, sempre ousou querer mais, nunca permitindo que algo ou alguém apagasse sua luz. Havendo falecido em 20 de março de 1953, vítima de câncer do pulmão, o Velho Graça, apesar de haver morrido na jovialidade dos 60 anos, conviveu, como ninguém, neste curto espaço de tempo, tanto com a glória, ao ser eleito Chefe do Executivo em Palmeira dos Índios, como com o ostracismo, ao permanecer preso em cadeia alagoana. Nestes períodos, enquanto prefeito, usou toda criatividade para redigir relatórios de sua administração, chamando a atenção de renomados editores brasileiros a ponto de animar-se a escrever Caetés. Após preso, materializou dois trabalhos, um intitulado Angústia e o outro Baleia (conto), que dariam origem ao livro Vidas Secas, publicado tempos depois. Apesar de nunca haver integrado o quadro de sócios da centenária Academia Alagoana de Letras, Graciliano Ramos é, talvez, o mais imortal dentre tantos da Terra dos Marechais, devendo-se, tudo isto, ao legado oferecido à posteridade através de textos elaborados na primeira metade do Século XX, até agora considerados atuais e pertinentes quando presentemente lidos. Ainda bem jovem, comecei a me interessar pelos escritos de Graciliano, inicialmente São Bernardo e Vidas Secas, por meio dos quais entendi ser a observação fundamental para um escritor, porque quem escreve precisa ser um mestre da atenção. Na verdade, nem tudo é simples: Por trás de cada reação humana, de cada gesto, há influências, escolhas, dúvidas, certezas, interesses, desejos e temores. O bom autor dialoga com todos esses elementos. Tentando descobri-los, imagina-os, enquanto exercita a qualidade imprescindível da observação. Ultimamente, por estar concluindo uma coletânea de quatro volumes voltados à literatura infantojuvenil, tenho me dedicado à leitura dos trabalhos similares, preparados por Graciliano: Terra dos Meninos Pelados e Histórias de Alexandre, e, o mais admirável, no exuberante escritor, é constatar como, independente do estilo, ele alimenta a imaginação do leitor, levando-o a buscar entender o estranho, o diferente, o outro que nos perturba ou encanta; ajudando-nos, muitas vezes, não apenas a conhecer nosso próprio eu, como a viver os personagens de forma convincente e sem complexidade. Mestre Graça é, talvez, o Maior entre os Maiores...

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