Opinião
O carma do Nordeste
SÔNIA SILVA BRITO LIMA * Cada povo traz em si as feições, os costumes e a cultura da região onde habita. Assim somos nós nordestinos: sotaque arrastado, ?pavio curto?, descontraído, às vezes um tanto irreverentes. Por outro lado, nossas taxas de iletrados assumem proporções alarmantes, razão pela qual marginalizam-nos nas demais regiões do País. Vítimas, representamos a ?nordestização?, uma espécie de parâmetro econômico medidor da situação social. Parecemos excluídos... As características nossas regionais denotam potencialidades distintas, carecedoras de soluções a curto prazo, no âmbito do desenvolvimento isonômico e integrado. Imbuídos da perspectiva de crescimento, continuamos no aguardo de medidas operacionais arrojadas, em substituição a instrumentos político-sociais caducos, que perderam a capacidade de atuação na formação de qualificação da mão-de-obra, na educação e na redução progressiva das nossas desigualdades. A palavra ??Nordeste?? parece desfigurada, retrógrada. E quase não sugere senão as secas. Os sertões de areia rangendo debaixo dos pés do trabalhador rural. Os sertões de paisagens rarefeitas. Os mandacarus. Os bois e cavalos angulosos e pachorrentos. A escassez de água. Os habitantes rurais de pele enrugada pelo sol, opilados pela aguardente, pela verminose, pelo ócio, pelas doenças endêmicas. Uma realidade nacional no cenário da miséria, da exclusão e das injustiças sociais. Inconcebe-se polemizar a região como uma realidade indiferenciada, na qual os desacertos, as omissões e políticas descontínuas acabam empanando seu potencial e aprofundando suas mazelas. O governo (federal, estadual e municipal) abrindo suas vias de acesso à formação e difusão de pólos de empreendimentos empresariais economicamente rentáveis, dinamizando, por exemplo, a fruticultura irrigada nas margens do São Francisco, sem sombra de dúvidas, fará gerar mais empregos, mais crescimento. Belo é o nosso litoral. Investindo-se no turismo e na pesca, os lucros serão direcionados à indústria como um todo, favorecendo os micros, os médios e os pequenos negócios e, conseqüentemente, dignificando e valorizando o cidadão nordestino. Não desconhecemos a necessidade atual de cortar despesas. Contudo, a parceria tem operado milagres nos grandes empreendimentos metropolitanos, onde os mecanismos inovadores de planejamento, programação e execução funcionam acertadamente no contexto socioeconômico. Afastar o carma do Nordeste não é tarefa fácil, tendo em vista a disfuncionalidade do nosso sistema político, embora a cidadania se agigante diante do poder público, exercendo modificações miraculosas, transpondo obstáculos e corrigindo injustiças. Não podemos perder a confiança em nós mesmos. Querer é poder... *É PÓS-GRADUADA EM CIÊNCIAS JURÍDICO-CRIMINAIS, EM PORTUGAL, E MEMBRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MULHERES DE CARREIRA JURÍDICA