Opinião
A escrita da vida
A escrita surgiu em minha vida, no comecinho da adolescência, como uma consequência natural da leitura que me acompanhava desde a infância. Quase que diariamente eu comprava gibis no ?Cantinho da Música?, a loja de discos que dona Gedalva mantinha a poucos metros da minha casa, em Murici, para onde eu corria a cada vez que algum trocado pousava em minhas mãos. Toda semana ela vinha fazer compras em Maceió, e eu esperava ansiosamente o seu retorno com as novas edições do Pato Donald, do Tio Patinhas, do Recruta Zero e da Turma da Mônica, que foram as portas pelas quais eu cheguei aos livros, sendo o primeiro deles um cujo título já se perdeu nos desvãos da memória, mas que me deixou na lembrança uma personagem marcante, a temível bruxa Jubitibaca, que assombrou tantas das minhas noites insones. Antes disso eu ouvia, como todos os da minha geração, as histórias contadas por nossas avós e babás, na calada da noite, falando de malassombros e coisas do outro mundo. Eram fábulas orientais transmitidas oralmente de geração em geração, adquirindo o jeito de falar e de ser do nosso Nordeste; eram episódios bíblicos misturados com fatos do interior, sereias, dragões e serpentes convivendo em nosso imaginário com burros bravos e bois violentos. E escutava os relatos de Seu Esíquio, vigia noturno da minha rua, que nas altas madrugadas testemunhava um bocado de marmota no entorno da igreja matriz. Tudo isso foi se tornando a matéria-prima do que eu escrevo, irrigando os meus poemas, as minhas memórias e as minhas crônicas com aquilo que eu presenciei e vivi. Cada pessoa sente de modo diferente o mesmo fato, e por conseguinte também o descreve de forma diversa, diante da sua sensibilidade e da maneira como foi afetada por ele. Comigo não é diferente: a minha inspiração para escrever vem sempre da vida que tenho vivido. Não faço ficção, não busco na fantasia a matéria-prima para os meus textos; a minha jornada pessoal é que fornece os meus motes, as minhas próprias experiências fazem com que a palavra corra solta diante da página em branco, sedução irresistível que me arrasta e me conquista. Gosto de todas as formas de arte, mas jamais aprendi a esculpir, a pintar, a tocar instrumento algum. As letras sempre foram o meu ofício e a minha paixão, a minha maneira de estar no mundo e interagir com ele, a minha forma de me comunicar com os meus semelhantes. Escrever, para mim, é uma forma de viver, ou ao menos de viver de novo, tendo em mente a advertência de Ferreira Gullar, em seu poema Desordem: ?Por mais que diga/e porque disse/sempre restará/no dito o mudo/o por dizer/já que não é da linguagem/dizer tudo?.