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Opinião

Um dia para refletir

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Em 1971, o disco anual de Roberto Carlos trouxe uma música que provocou forte impacto na época: Todos estão surdos. Aquele foi, talvez, o ano mais duro dos chamados anos de chumbo da ditadura militar, um período tenebroso. O presidente Emilio Garrastazu Médici aprimorou a repressão, a censura foi total, qualquer manifestação contra o regime era duramente reprimida. Uma época violenta, com prisões arbitrárias, tortura e assassinatos. Intelectuais e artistas deixaram o País ?espontaneamente?, outros sumiram e as famílias sequer tiveram o direito de enterrar seus corpos. Fui preso três vezes, sobrevivi, muitos amigos ficaram pelo caminho. Onde quer que estejam devem estar olhando para o Brasil com aflição. Na letra da música, Roberto diz: ?tanta gente se esqueceu/ que o amor só traz o bem/ que a covardia é surda/ e só ouve o que convém/ mas meu Amigo volte logo/ vem olhar pelo meu povo/ o amor é importante/ vem dizer tudo de novo?. O Rei, como ainda é chamado, falava de Jesus Cristo, mas, metaforicamente, falava também do Brasil. Não por acaso, também nesse disco, Roberto Carlos dedicou uma música a Caetano Veloso, que estava no exílio em Londres, Debaixo dos caracóis dos seus cabelos: ?as luzes e o colorido/ que você vê agora/ nas ruas por onde anda/ na casa onde mora/ você olha tudo e nada/ lhe faz ficar contente/ você só deseja agora/ voltar pra sua gente?. Um disco político que pontificou numa era de mordaça. Hoje é sexta-feira santa, dia em que o calvário de Jesus é lembrado. Um momento de reflexão, de contrição, de lembrar aos que estão surdos pedindo nas ruas a volta dos militares ao poder que a pior das democracias é melhor, muito melhor que uma ditadura. Mais uma vez ouçamos a mensagem de Roberto Carlos: ?tanta gente se afastou/ do caminho que é de luz/ pouca gente se lembrou/ da mensagem que há na cruz/ meu amigo volte logo/ venha ensinar meu povo/ que o amor é importante/vem dizer tudo de novo?. Há erros hoje, é claro. Precisamos corrigi-los. Uma reforma política se faz necessária, bem como uma revisão constitucional. Não podemos é nos levar pelo ódio e estabelecer a truculência como panaceia governamental. Pedir a suspensão do estado de direito e a implantação de um regime de exceção é não somente manifestação de surdez, como também de cegueira política.

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