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Opinião

A festa do urubu

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Deu para notar com facilidade a grande diferença nas expressões faciais e no ânimo dos dois grupos que na mesma segunda-feira dessa semana levaram os seus abaixo-assinados ao STF: enquanto o grupo de advogados exultava e se divertia ao levar o seu manifesto que exigia que as sentenças criminais só sejam cumpridas depois de julgadas pela última instância, o grupo de magistrados e procuradores que pedia que elas fossem cumpridas depois de proferidas em segunda instância, conforme é a deliberação atual do próprio Supremo e comum na maioria da democracias, mostrava a sua ansiedade e insegurança, que claramente, são as mesmas da sociedade brasileira saudável. Liderados respectivamente por Kakay, um abastado advogado, figura pop, frequentador da noite e das baladas brasilienses; conhecedor dos segredos das madrugadas e das alcovas dos poderosos brasilianos e por um promotor obscuro e titubeante de Brasília, o mérito e a moral das duas petições ali protocoladas era e é o que menos interessava e interessa para a definição do processo. Daí e com todo o respeito, supor que se os processos se eternizarem por idas, vindas e labirintos que circulem pelos anéis de Saturno, ultrapassem os limites da Via Láctea, antes de retornarem bem velhinhos e carcomidos pelas traças aos gabinetes dos magistrados (e se possível prescritos...) é a opção favorita daqueles advogados, não constitui ofensa, afinal, ganhar um dinheirinho a mais é apenas um detalhe. É o odor de carniça no ar que aumenta... Por outro lado, as consequências do que for deliberado na reunião do STF prevista para quarta-feira, dia 4, também não parece preocupar uma parcela dos ministros, liderados nesse movimento, segundo os observadores da Corte pelo ministro Gilmar Mendes. Quais os motivos que teriam mudado o entendimento de sua excelência de 2016 para cá, nem perguntando ao Posto Ipiranga: apenas suposições nos restam. Sabe-se unicamente que se esse grupo formar maioria e deliberar pela execução de sentenças só depois do julgamento em última e derradeira instância, será a consagração e a oficialização da impunidade para os poderosos; será um golpe insuperável na árdua e dificílima luta da sociedade brasileira contra a criminalidade e a impunidade dos poderosos; será um golpe mortal contra a Lava Jato e o que ela representa, mas também contra as esperanças em soluções democráticas para os atávicos e crescentes problemas que atormentam a população e ameaçam a sua sobrevivência social e mesmo física. Concretizada essa situação, as alternativas para mediar problemas relevantes através das instituições e dos mecanismos da democracia ficam esgotadas. A quem isso interessa? Certamente aos radicais e extremistas de ambos os lados; aos oportunistas, inconsequentes, aventureiros e irresponsáveis de um modo geral. Episódios violentos e associados à resolução de conflitos através das próprias mãos, como a execução da vereadora Marielli, dos tiros na caravana de Lula, e das ameaças ao ministro Fachin, poderão deixar de ser exceções para se tornarem parte do processo. O odor de carniça ameaça se elevar e ultrapassar os limites do tolerável.

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