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Beatles e Luiz Gonzaga

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Luiz Gonzaga, o eterno Rei do Baião, e os Beatles têm muito em comum. Ícones incondicionais, eles deram ao mundo uma revolução cultural por meio da música. A sanfona de Gonzaga, ainda na década de 40, divulgou a cultura nordestina para todo o País (e para o mundo também), mais do que isso: inovando no jeito de compor e tocar baião, ele o modernizou, elevando-o à condição de arte e colocando-o, como peça fundamental (e enriquecedora), na grande engrenagem que compõe a MPB. Os Beatles, da mesma forma, tiraram das seis cordas da guitarra um som que virou o mundo da música de cabeça para baixo. Essa aproximação de Gonzaga com os quatro rapazes de Liverpool não para por aí. No finalzinho da década de 60, saiu a notícia de que os Beatles estariam interessados em gravar a música Asa Branca, obra maior de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Algumas pessoas duvidaram da informação, mas ? dentro de um raciocínio lógico ? tudo indicava que aquela notícia fazia sentido. Sabe-se que, antes da fama, às vésperas de gravarem o primeiro álbum, os Beatles costumavam fazer turnês longuíssimas, com apresentações que duravam oito, nove ou dez horas. Nesses shows, eles tocavam de tudo, com os mais diversos ritmos e estilos. George Harrison escreveu sobre aquela época: ?Tivemos que aprender milhões de músicas. Tocávamos durante tanto tempo que simplesmente apresentávamos de tudo. (...) Fazíamos qualquer coisa, porque era preciso tocar durante horas. Precisávamos inventar?. Os Beatles sempre absorveram os mais diversos tipos de estilos musicais para agregá-los ao rock de que tanto gostavam. Da música clássica à indiana, do bolero ao blues ou do jazz ao canto gregoriano, tudo, por fim, servia de inspiração para eles. A pergunta óbvia vem à mente: por que os Beatles não se deixariam levar pela sanfona de Gonzaga? Nada os impediria. O próprio Paul McCartney disse certa vez que a lindíssima Fool On The Hill foi feita sob a influência da bossa nova de João Gilberto. Influência caracterizada mais pela inovação da batida do violão do que pelo ritmo brasileiro em si. Sobre o entusiasmo dos Beatles pelo hino nordestino, Gonzaga disse à revista Veja em setembro de 1968: ?Os meninos ingleses têm muito sentimento e não avacalham a música. A toada deles parece bastante com as coisas do Nordeste. Até as gaitas de fole lembram a nossa sanfona?. O genial Gonzaga reconhecia o talento e a qualidade artística dos quatro ingleses ? gênio reconhece gênio? Poucos anos depois, os Beatles se separariam definitivamente e, como se sabe, eles nunca chegaram a gravar Asa Branca. Só por volta de 1982, circulou um boato sobre essa história: tudo não teria passado de uma ?brincadeira? do produtor e cineasta Carlos Imperial com a finalidade de alavancar a carreira do Rei do Baião, quase no ostracismo musical, prestes a se aposentar. Eu prefiro acreditar que os Beatles realmente quiseram dar uma versão rock?n?roll ao clássico de Gonzaga. O que seria da música sem os mitos?

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