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Deus salve o Brasil

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Acompanhando a sessão do Supremo Tribunal Federal, onde se votava o habeas corpus preventivo em favor ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, lembrei-me do notável Júlio Afrânio Peixoto, médico, político, historiador e membro da Academia Brasileira de Letras, o qual teve o privilégio de, na época, hospedar o renomado escritor e poeta Stefan Zweig. Os dois foram da Bahia ao Amazonas, de Pernambuco a São Paulo, de Minas Gerais ao Rio Grande do Sul, numa convivência de um ano e meio, tempo bastante para Stefan escrever sua apaixonante obra: Brasil, país do futuro. Encantado com tudo e com todos, Stefan encontrou um aspecto absolutamente próprio, com ordem e perfeição na arquitetura, no traçado da cidade (Rio de Janeiro), onde existia arrojo e grandiosidade em todas as coisas novas e, ao mesmo tempo, uma civilização antiga ainda conservada de modo muito feliz. Foi ele um namorado de nossa terra e de nossa gente. Andou, virou, passeou, viajou, viveu. Não exigiu condecorações, festas, recepções nem discursos. Embora fosse uma grande autoridade da literatura internacional, passou desapercebido. Queria ver, sentir, pensar, escrever livremente sua obra... Era um apaixonado pelo Brasil, entendendo que este seria um dos mais importantes fatores do desenvolvimento do futuro mundo. Fascinado, e ao mesmo tempo comovido, deparou-se com uma das mais belas paisagens do planeta numa composição sem igual, de mar e montanhas, cidade e natureza tropical, um deslumbramento... Dizia ele que, no Rio, havia colorido e movimento; seus olhos não se cansavam de olhar e, para onde quer que os dirigisse, sentia-se feliz, apoderando-se dele uma ebriedade de beleza excitando seus sentidos, estimulando seus nervos, dilatando seu coração e, por mais que visse, ainda queria mais ver mais. Encantado, sempre deslumbrado, dizia ser o nosso Brasil um país de crescimento rápido, cuja importância para as gerações futuras não se poderia calcular, mesmo fazendo as mais ousadas combinações. Hoje, se Stefan Zweig estivesse vivo, por certo estaria triste e cabisbaixo, ante a perspectiva de insucesso, pois a situação do Brasil é insustentável sem a insurreição da consciência coletiva e sem a mobilização das autoridades públicas, trazendo-nos medo e incertezas de um futuro destruidor da sociedade democrática. Suas excelências, os ministros, quando da leitura e justificativas de seus votos, deixaram evidente o preço alto que estamos pagando pelo estrago deixado pela corrupção em nosso país. Assim, nossa democracia está em jogo. Vejamos o exemplo da Venezuela, com a perda de poderes do Parlamento, onde se fez sepultar qualquer resquício de democracia, embora possuidor aquele país de grandes reservas de petróleo. A realidade atual do Brasil, com a volatilidade dos mercados, designadamente os financeiros, com o desenvolvimento de uma parafernália de novos produtos, serviços e meios de fazer negócios, só nos acarreta danosidade social, no contexto de novos esquemas de conexões com grupos delinquenciais e uma rede subterrânea de ligações com os quadros oficiais da sociedade, da economia e da política, inerciando ou fragilizando os poderes do próprio Estado democrático, através de suas normas e formas de atuação. Bom seria a realização de diligências em nível internacional para introduzir regras no sentido de maior clareza do funcionamento dos paraísos fiscais, a introdução urgente de mecanismos regulares mais estritos das atividades bancárias e financeiras, bem como de um registro para as empresas imobiliárias e outros organismos suscetíveis de procederem ao branqueamento de dinheiro proveniente da ilicitude. Dever-se-ia, também, prestar atenção especial ao controle de setores econômicos e comerciais tradicionais, tais como a indústria de turismo, o setor hoteleiro e dos transportes, o mercado de arte, os títulos de tesouro, bem como todos os setores nos quais são utilizadas importantes somas em numerário. Que Deus salve nosso Brasil.

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