Opinião
Suprema lição
Três anos atrás, em maio de 2015, desenrolava-se um evento histórico. No que seria considerada a mais tensa sabatina em 20 anos, Edson Fachin enfrentava o Senado Federal. O procurador de origem humilde, que começou a vida vendendo laranjas e passagens de ônibus, chegou a chorar frente à tormenta de acusações feitas à sua pessoa. Mesmo antes dele começar a falar, Ronaldo Caiado (DEM), entre outros membros da oposição, orientaram as bancadas a reprovar sua indicação. Apesar das alegações de que seria militante do PT e do MST, a carga maior de acusações se concentrou na questão moral. Algumas semanas antes, o jornalista Reinaldo Azevedo, assim como havia feito com Roberto Barroso por conta de sua atuação em prol do casamento homoafetivo, iniciou uma campanha difamatória contra o futuro ministro. Acusou-o de defender a bigamia e os direitos das amantes, pelo simples fato dele ter assinado o prefácio de um livro que defendia o direito de herança aos filhos gerados fora do casamento. Fachin terminou sendo aceito e, de lá para cá, muita coisa mudou. Reinaldo Azevedo foi exposto conversando intimidades nada profissionais com fontes do PSDB. Dali em diante, passou a ser o maior inimigo de Sergio Moro e da Lava Jato. Até então ?voz do golpe?, na revista Veja e no rádio, passou a defender ardorosamente a inocência de Lula. Enquanto Fachin, Barroso, Fux e Teori, todos indicados por Dilma Rousseff, cerravam fileiras no combate à corrupção, Dias Toffoli segurava o julgamento (já decidido) do fim do foro privilegiado até que a estranhíssima mudança de opinião de Gilmar Mendes sobre a prisão em segunda instância garantisse a continuidade da impunidade aos poderosos. Temos uma eleição batendo à porta. Em países normais, o povo pode escolher seus candidatos pensando em valores morais, correntes ideológicas ou estratégias de desenvolvimento. Não podemos nos dar a esse luxo. Ou votamos em candidatos comprometidos com o fim do ?pacto oligárquico de saque ao Estado? ou o trabalho iniciado por Ayres Britto e Joaquim Barbosa, que foi muito atacado por, supostamente, estar no Supremo apenas como ?cota?, terá sido em vão. Voltaremos aos tempos de Ellen Gracie, Eros Grau, Sepúlveda Pertence, Carlos Velloso, Nelson Jobim, entre tantos outros digníssimos e respeitadíssimos magistrados, mas que nunca condenaram um só corrupto.