Opinião
Infância ameaçada
Uma pesquisa realizada pela organização social Visão Mundial avaliou a percepção da sociedade sobre a violência praticada contra as crianças e os adolescentes e colocou o Brasil em primeiro lugar como o mais violento, na comparação com 13 países da América Latina. Algumas formas de violência consideradas foram o abuso físico e psicológico, trabalho infantil, casamento precoce, a ameaça on-line e a violência sexual. No Brasil, a pesquisa apontou que três em cada dez pessoas conhecem, pessoalmente, uma criança que sofreu violência. Além disso, 70% disseram sentir que a violência na infância tem aumentado nos últimos cinco anos e 83% concordam que essa violência pode ter impacto na vida adulta. Para a organização, o contexto de desigualdade nos países estudados alimenta a violência, que, por sua vez, exacerba a desigualdade. Em termos de homicídios, a América Latina responde por 25% no mundo. Segundo a pesquisa, o sentimento do latino-americano é de que o espaço público oferece mais risco à criança, com 52% das respostas. A casa da criança ficou em segundo lugar, com 21%, seguida por escola, 13%, transporte público, 6%, e espaços religiosos, com 3%. A percepção da sociedade não se dá por acaso. Infelizmente, os números a confirmam. De acordo com o Balanço Anual da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos de 2015, 59% das denúncias registradas no Disque 100 foram relacionadas a crianças e adolescentes. As maiores violações são: negligência (38%), violência psicológica (23,95%), violência física (22%) e violência sexual (11%). Em relação à violência sexual, que ocupa a quarta posição, foram registrados 17.588 casos, o que equivale a duas denúncias por hora ? sendo que 70% das vítimas são meninas. Em todos os casos, a faixa etária mais atingida é entre 12 e 17 anos (31%) e de 0 a 3 anos (16%). Quanto ao gênero, 45% das vítimas são meninas, 39%, meninos, e, em 16% dos registros, o gênero não foi informado. Considerando a raça, de acordo com a classificação do IBGE, negros e pardos somam 34% e brancos, 24%. As crianças negras e pardas representam 57,5% do total geral de denúncias. Os dados mostram que a violência está naturalizada entre os jovens em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Apesar do avanço na legislação, com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ainda há muito a ser feito para que tudo que está previsto na legislação saia, de fato, do papel.