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As drogas e o fundo do poço

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Gosto de provérbios; eles sintetizam ideias. Meus preferidos são os gregos e os latinos porque explicam assuntos numa áurea filosófica. Em geral, não basta esclarecer um pensamento; produzir reflexão sobre algo é ponto característico. Um dos mais simples diz: ?O golpe do mal previsto chega mais fraco?. Essa máxima latina afirma que os males inesperados são mais duros. Há dois versos medievais de São Columbano que tratam dessa questão, assim: ?As coisas previstas são mais facilmente suportadas; as imprevistas parecem muito mais graves?. Numa citação equivalente em contexto e mais conhecida entre as classes populares da sociedade, revela-nos: ?Um homem precavido vale por dois?. Recentemente, conversei com um pai que estava à beira da loucura. O desespero lhe chegou por causa da filha adolescente. Ela se envolvera com uma galera ?descolada?, começou a usar drogas e, pior, o consumo (já excessivo) de crack a obriga a fazer roubos para manter o vício. A aparência da garota mudou rápido: duma beleza cinematográfica a um aspecto de mendiga, a transformação dela num arremedo de gente logo assustou os pais. Os sinais de que algo estava errado com a garota eram evidentes. As mudanças físicas e, em especial, as comportamentais indicavam o desvio de conduta. Para os que conviviam com ela (e notavam esses detalhes), a notícia de que ela estava se afundando na ?lama tóxica? não os impressionou. A desgraça mesmo foi para os pais desatentos. O tombo para o fundo do poço ocorreu de forma vertiginosa e, como é comum de ver nessas situações, o dependente químico leva a família para um passeio até às profundezas do inferno: pai, mãe, irmãos, avós... todos juntos! Eu poderia citar o poder devastador das drogas, mas prefiro (por achar mais importante) me referir a algo que pode evitar tragédias: a atenção aos jovens, em forma de orientação e acompanhamento. Por ser muito simples, essa prática pode parecer ?supérflua?. Puro engano porque, verdade seja dita, a experiência nos mostra que grande parte dos problemas familiares relativos às drogas se resolve por atitudes simples e pela atenção necessária ao problema. Casos de famílias destruídas pelo vício são mostrados todos os dias na mídia. Situações em que o viciado é abandonado pela família ? quando ela opta pelo caminho mais radical ? ou simplesmente o interna numa clínica de recuperação, na esperança de vê-lo de volta à vida. Em geral, os responsáveis pelo jovem que se envolve com drogas só tomam uma atitude quando o notam ziguezagueando pelas ruas como zumbi, dominado pelos alucinógenos ou delinquindo para sustentar o consumo de drogas; não raro, ele também começa a traficar: aí o caso de recuperação da saúde (física e mental) passa para um segundo plano, bem mais complicado, porque entra em jogo o aspecto policial. Para que não se chegue ao fundo do poço, tenhamos a consciência de que gestos simples, como aconselhamento e diálogo, são as primeiras defesas para o jovem não se desencaminhar da estrada correta.

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