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Todo dia é dia de índio

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Getúlio Vargas deixou um legado de profundo impacto social e político, consolidado nas leis trabalhistas e no monopólio estatal do petróleo, mas também prestou homenagens significativas, como a criação do Dia do Índio, comemorado ontem, 19. Na verdade, Vargas atendeu a uma reivindicação dos participantes do Congresso Indigenista Americano, realizado no México, em 1940. Naquela época, a preservação dos valores étnicos dos chamados povos da floresta ganhava força e chegava aos governos, que preferiam deixar os indígenas entregues à própria sorte; não que elencar um dia fosse alterar a situação vivida, mas serviu para Vargas dar voz àqueles que durante séculos foram ignorados. A cantora Baby do Brasil compôs, há anos, uma música que fez muito sucesso: Todo Dia Era Dia de Índio, uma ironia com a escolha de uma data para homenagear nossos ancestrais, sim, pois, nesse cadinho racial que resultou no povo brasileiro, temos sangue e sabor indígenas. Tupis, caetés, guaranis, tupinambás eram maioria. Calcula-se uma população em torno de 4 milhões de indivíduos quando do descobrimento do Brasil. Mas o contato com microrganismos trazidos pelos portugueses da Europa dizimou grande parte, e ao longo do tempo acabou por não vermos índios todos os dias. Os invasores foram sistemáticos: tentaram escravizar, não conseguiram; partiram, então, para o aniquilamento, houve resistência, porém, sem dominar a metalurgia, nossos bravos resistiram até o limite da exaustão. Hoje, a população estimada é de 900 mil cidadãos indígenas, muitos aculturados, outros, nas matas, lutando pela demarcação de reservas, pela proteção ambiental e pela manutenção de princípios culturais. Ao contrário do que ocorreu em outros países das Américas, o indígena brasileiro não partiu para uma guerra franca, integrada, contra os colonizadores. Mesmo assim, tivemos episódios que ecoaram no curso da história, como a morte do primeiro bispo do Brasil, Dom Pero Fernandes Sardinha, devorado pelos índios caetés, em 1556, em terras alagoanas. Nada, todavia, que indicasse uma resistência em larga escala, e, assim, portugueses, franceses e holandeses foram minando as forças autóctones e implantando, e consolidando, o modelo colonialista. Nos anos 1970 e 1980, surgiram lideranças indígenas que alcançaram prestígio internacional, como o cacique Raoni e o folclórico Mário Juruna, eleito deputado federal pelo PDT-RJ, em 1983, que andava com um gravador (muito antes das delações premiadas) para registrar as conversas com os brancos e, assim, impedir que eles voltassem atrás nas promessas. Eram poucos na multidão. A sociedade, simplesmente, ignorava seus apelos. Aos poucos, um sentimento de solidariedade instalou-se, mas ainda é tênue frente às investidas de mineradoras, madeireiras e representantes do agronegócio que não entendem como um punhado de índios merece ter tanta terra. Se eles precisam fazer tal pergunta, com certeza não vão entender a resposta.

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