Opinião
Reflexos de uma infância infeliz
A criança é um ser altamente sensível, e ao lado das doenças transmissíveis, das verminoses e dos agravos sociais, as agressões psíquicas exercem uma influência notável sobre o futuro de suas vidas. Vejo isso há 55 anos no exercício diário da medicina. É um fato já perfeitamente conhecido que a criança depende, para o bom desempenho orgânico e psíquico, dos cuidados que recebem dos pais, do amor, da boa convivência com eles. Desde a amamentação até a adolescência, passando pela fase pré-escolar e escolar, ela depende dessa convivência afetiva e será um adulto feliz ou infeliz, saudável ou neurótico. De um intercâmbio afetivo contínuo é que resulta a estabilidade emocional da criança e o seu equilíbrio para uma vida em plenitude. O mundo vai crescendo, adquirindo um progresso extraordinário através de uma tecnologia avançadíssima em todas as áreas, principalmente das comunicações, tornando este mundo bem menor pela aproximação através da televisão de todos os continentes. Entretanto, este progresso material não foi acompanhado de um progresso moral, de tal forma que a civilização tornou-se muito comprometida com atos desabonadores. Daí, os lares incompletos, os lares desfeitos, os lares negligenciados, os lares brutalizados, onde a violência, os maus-tratos físicos e a desarmonia são a tônica na convivência da criança com os adultos. Em todos esses casos, em qualquer situação econômica, a criança sente-se abandonada, confinada, inibida, punida, crescendo recheada de conflitos interiores, ansiosa por amor, proteção, compreensão e confiança. As crianças negligenciadas ou maltratadas durante um longo período de sua infância têm baixa autoestima quando crescem, não têm sentido de vida e crescem sem saber o que querem e para onde vão. Algumas são tristes, outras, rebeldes, vazias e reprimidas. Um dia quando adolescentes, seus conflitos interiores e reprimidos explodirão, proporcionais aos sofrimentos e às angústias pelas quais passaram durante a infância. O que poderemos esperar dessas milhões de crianças que perambulam pelas ruas, dormem em baixo das pontes, mendigam diante dos semáforos? Se cada um cumprisse bem o seu papel, os pais e as autoridades responsáveis pelo bem-estar social das populações, teríamos um mundo cada vez melhor, porque são as crianças a fonte da vida. Muitas coisas de que precisamos podem esperar. A criança não. Seu corpo está em desenvolvimento; sua mente, pronta para captar todas as emoções boas ou más de tal forma que vão influenciar decisivamente em seu futuro. Nenhuma nação pode crescer e prosperar com a criança mal assistida, desnutrida e infeliz, como 35% das crianças brasileiras atualmente. Na estrada da vida, não há paradas. Ou se caminha para frente ou para trás. E de onde vem esse caminho? De onde parte esse entusiasmo, essa força propulsora? Daquela mulher-mãe, dessa criatura sem igual que carrega por toda a vida, enfrentando todos os seus obstáculos para distribuir amor com seus filhos. O futuro da Nação brasileira depende da criança e do jovem de hoje. Assim, que eles possam ser muito felizes para que tenhamos um futuro grandioso.