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Opinião

Histórias e estórias

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Ao longo da vida, vamos acumulando, num recanto da nossa imaginação, passagens merecedoras de um reservatório diferenciado para expandi-las em algum momento, entre as pessoas pertencentes ao nosso ciclo familiar, amigos ou algum leitor anônimo. Aos poucos, tornamo-nos verdadeiros contadores de histórias ou estórias, interessantes e inesquecíveis, que se expandem como se fossem poeiras tangidas pelo vento. Às vezes, o seu retorno imaginário nos faz sorrir ou entristecer, dependendo do assunto reeditado, ao recordarmos personagens que certamente já dobraram a esquina da vida. Em Viçosa, minha terra natal, vizinha da nossa casa, residiam compadre Chico Inácio e comadre Zefa Mole, cuja família era formada por Fulô, Tazinho e Júlia, todos prestadores de serviços em nossa residência. Jamais soubemos os seus verdadeiros nomes, não possuíam identidade alguma nem emprego fixo, apenas uma roça em terreno cedido por algum desconhecido. Diariamente, enquanto alguns iam para a lavoura, outros permaneciam ao nosso dispor. Comadre Zefa seguia para as margens do Rio Paraíba com uma enorme trouxa de roupas para lavar e só retornava após o meio-dia, estendendo-as nos varais ou nas cercas de madeira. Tazinho, o grandalhão, acordava muito tarde. Preguiçoso e desajeitado, dormia na sala em declive numa esteira, e o seu xixi escorria atingindo a calçada. Meus irmãos e eu olhávamos pela brecha da porta e nos divertíamos com aquele espetáculo ridículo. À noite, vinham todos auxiliar a mamãe no momento de nos acomodar para dormir. Cada um deles colocava os mais novos no colo, enquanto os outros ocupavam assentos disponíveis. Aprendi a admirar a lua e a contar estrelas desde então, fazer comparações com as nuvens, ouvir estórias de trancoso, que às vezes nos amedrontava e fazia chorar. A caipora vivia na mata, com os cabelos enormes e encaracolados; o lobisomem, feio e rabugento, matava as crianças e bebia o seu sangue; o fogo corredor levava todas elas para um buraco e as incendiava. Tudo era apenas tragédia. O nosso sono surgia impulsionado pelo terror provocado por aquelas tenebrosas narrativas. Assim, vivemos a nossa infância, que somente o amor às minhas bruxas de pano era capaz de amenizar tanto pavor. Ao invés de sonhos, os pesadelos, quase sempre, cercavam o nosso leito de crianças inocentes. Mas, em meio a estórias tão negativas, aprendi a amar o firmamento, descobrir o encanto dos astros e, no dia seguinte, com as letras embaralhadas, escrever os meus primeiros versos, numa espécie de fuga, ignorada por mim e por todos. Aprendi a gravar na minha mente o espetáculo da lua cheia, a humildade da lua nova e o aconchego das constelações nos oferecendo um exemplo de união e respeito! Obrigada, compadre Chico Inácio e comadre Zefa Mole, que, através da sua ignorância, acreditavam nos aconchegar com afeto e carinho.

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