Opinião
Cigarro paraguaio: eixo do crime
Neste mês de abril, a polícia federal iniciou uma série de operações visando às investigações e prisões de criminosos que fazem parte da extensa rede do contrabando de cigarros. De imediato, foram cumpridos 35 mandados de prisão preventiva e dois mandados de prisão temporária em seis municípios paulistas, dois sul-mato-grossenses, um paranaense e um capixaba. Desde 2011, o contrabando de cigarros já representou uma sonegação de mais de R$ 46 bilhões aos cofres públicos brasileiros. A estrutura central de logística, distribuição e gestão administrativo-financeira do contrabando de cigarro, representa o eixo de uma roda. Nele, ligam-se as outras modalidades de contrabandos: de armas, drogas, bebidas, brinquedos, perfumes, remédios, roupas, tênis, óculos etc. Um dos aros é o de roubos de cargas. Tudo isso lubrificado pela corrupção de uma ínfima (porém, muito ativa) e até agora intocável minoria de agentes públicos municipais, estaduais e federais. Portanto, priorizando-se o desmantelamento do eixo do contrabando do cigarro, desmonta-se a roda da criminalidade que tomou de assalto o Brasil inteiro. É impossível que se vença esta causa sem que se concentrem as investigações e as prisões no núcleo da intrincada matriz do crime organizado. É como repete o juiz Sérgio Moro, recorrendo a um conceito prevalecente no sistema judiciário dos EUA: ?siga o dinheiro, e você descobrirá quem é o chefe do crime?. Sem uma clara e precisa hierarquização, não há como o País debelar a criminalidade sistêmica. Até porque é muito vasto, e às vezes inacessível, o território a ser vigiado. O Brasil tem 16,8 mil quilômetros de fronteiras terrestres, o equivalente a cinco vezes a área limite entre os Estados Unidos e o México. É por isso que devemos, primeiramente, colocar a lupa na interseção geográfica do Paraguai com o Paraná e Mato Grosso do Sul, como agora a PF começou a fazer, já que é por esse trecho da América do Sul que entram 48% dos cigarros consumidos no nosso Brasil. Ou seja: de cada dois maços de cigarros vendidos no País, um é contrabandeado. O maior mercado, obviamente, está na cidade de São Paulo. Nela, 40% dos cigarros vendidos aos consumidores finais vêm do Paraguai. São produzidos no país vizinho sem nenhum tipo de fiscalização por parte de autoridades sanitárias e, enquanto um cigarro popular fabricado legalmente no Brasil é vendido pelo preço mínimo estabelecido em lei de R$ 5,00, o paraguaio Eight, campeão de vendas no Brasil, é comercializado, em média, por apenas R$ 3,00. Se queremos dar um jeito no Brasil, um dos caminhos é secar a fonte do caudaloso e contínuo contrabando de cigarros, atividade dominada por quadrilhas do crime organizado. O combate a esse crime serviria para incrementar suficientemente a arrecadação, e ao mesmo tempo diminuir o tamanho do duro ajuste fiscal necessário para o País. O combate ao contrabando precisa estar ligado às nossas urgentes metas de redução da violência e da desigualdade social, de geração de emprego, de melhoria de saneamento básico, saúde e educação.