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Opinião

O riso do padre

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RONALD MENDONÇA * Quarenta anos depois, volto ao sítio do padre Pinho, em Bebedouro, hoje conhecido como Juvenópolis. Nas minhas recordações, o sítio era um refúgio e um lar para os meninos da redondeza que, açoitados pela fome e pelo desamparo, punham fé naquele homem incrível que fez da sua vida um hino de amor ao próximo. Sem recursos, é de se imaginar a ginástica que ele fazia, diariamente, para encher uma centena de estômagos ocos. O que sobrava de boas intenções faltava de infra-estrutura. Parece-me ainda estar vendo o padre Pinho coberto de suor, debaixo da surradíssima batina que um dia tinha sido preta, fisionomia quase escarlate pelo calorão do meio-dia, levando de volta alguns dos seus internos que estudavam no Colégio Marista. Não poucas vezes presenciei-o a esgrimir com o motor do velho jipe penso de um lado que, como uma mula voluntariosa, só andava quando queria. Eram, na verdade, dois guerreiros teimosos, o jipe e seu dono. De repente, a notícia: o velho padre Pinho (que nem era tão velho assim) morreu. Ninguém precisou ser alertado para reconhecer que se perdia um grande homem, uma das maiores figuras da filantropia alagoana. O ?paizão? e protetor de centenas de meninos deixara um enorme vazio, uma profunda sensação de orfandade que se espalhou pela comunidade inteira. Após a morte do seu fundador, algumas entidades civis e religiosas entenderam que não poderiam deixar desaparecer obra com aquela dimensão. Com dinheiro e pessoal, Irmãos Maristas encararam o desafio. A eles juntaram-se beneméritos de todas as camadas sociais e credos que, em nome de Deus ou da solidariedade, realizaram o sonho quase impossível de transformar o ?Padre Pinho? numa instituição que dispensasse a mendicância para sobreviver. Não foram fáceis os caminhos até a independência financeira, hoje plenamente garantida por uma moderna fábrica de móveis escolares. A indústria ? fruto de doações, é bom que se diga ?, além de produzir bons móveis, forma profissionais para o mercado de trabalho, remunerando-os enquanto dura o aprendizado. Flávio Cunha, amigo desde os tempos do Marista e atual presidente da instituição, alerta de que nada adiantaria ter uma fábrica produzindo se não houvesse compradores regulares. Foi aí que entraram o governador Ronaldo Lessa e a prefeita Kátia Born assumido o compromisso de adquirir toda a produção para equipar a rede pública, com os detalhes do preço justo e do pagamento em dia, sem intermediários. Cuidando de mais de uma centena de carentes, Juvenópolis larga na frente e mostra como se lida com a fome e a marginalidade. Ambiciosa, já se organiza para oferecer treinamento, também, para eletricistas, encanadores, pintores, cabeleireiros, manicures, costureiras, cozinheiras etc. É. Padre Pinho deve estar rindo à toa. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL

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