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Opinião

Vidro ou diamante

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Completara doze anos de idade, filho de um juiz de Direito responsável por comarcas no interior do Estado, normalmente permanecendo em Maceió, aluno interno no Colégio Marista. Guardo lindas recordações daquela época, quando muito aprendi. Lembro de nos feriados, visitar meus pais onde moravam, admirando-me com o comportamento tranquilo dos interioranos, que, nos finais de tarde sentavam em cadeiras trazidas para a calçada, ali permanecendo até o início da noite a bater papo com a vizinhança ou acompanhando, com o olhar descansado, uma simples folha seca, ao leu, passeando pelo chão, conduzida pela brisa fresca. Nas cercanias de nossa residência, morava um cidadão nativo que só vivia vestido em paletó, barriga proeminente, bigodes brancos cobrindo a boca, sempre ocupada por um charuto. Todos na cidade, o chamavam de Padrinho Major. Sua casa era uma festa permanente. O café da manhã servia um ?batalhão? de visitantes, o mesmo ocorrendo no almoço e jantar. Vivia rodeado de pessoas. Em minha compreensão juvenil, o homem era o dono da região, quase um deus, para todos. Coincidentemente, retornei à comarca justo no dia da morte do benemérito. Como todos os demais habitantes, fui visitar aquele que para mim, seria o primeiro defunto a ver. Confesso haver ficado surpreso, não com o cadáver, mas como os presentes, discursavam quase chorando, exaltando as qualidades do pranteado. Finalmente o funeral partiu para o cemitério. Recordo haver subido na carroceria de um caminhão para seguir o cortejo. Quase um corso, aplaudido por onde passava. Já no local do enterro, com a cova aberta no chão de terra, o caixão se aproximando, um dos presentes pulou dentro do buraco e gritou uma frase que nunca esqueci: ?Meu compadre só entra aqui se for por cima de mim, eu mato e morro por ele?. Familiares, o padre, o delegado, o inspetor de quarteirão, fizeram de tudo para demover o invasor da catacumba da ideia macabra e nada acontecia. O tempo passava. O sol já começava a se por quando um dos filhos do finado, perdendo paciência, gritou: ?enterra papai de qualquer jeito?. Para minha surpresa, ao ver a sombra da urna mortuária sobre sua cabeça, o ?apaixonado? mais que depressa pinotou do buraco, já saindo calado e sem chorar, deixando claro ser o objetivo do escândalo não carinho ao compadre, mas uma chance de fazer média com os presentes, alguns ignorantes, outros nem tanto. O tempo passou, mas aquela imagem permanece viva em minha mente. Talvez tenha sido meu primeiro contato com uma pessoa hipócrita e falsa, visivelmente querendo receber aplausos, por um ato de coragem que jamais poderia materializar. A vida é assim. Dias atrás, bem defronte à TV, assisti aos últimos atos do calvário do presidente Lula. Pessoas esperneavam, gritavam palavras de ordem, tentavam impedir que seu líder fosse trancafiado e até ameaçavam ser ?enjaulados? com ele. Mas a letra fria da lei prevaleceu e o ídolo de muitos está sozinho. Resta saber se a multidão que o aplaudia naqueles momentos, era formada, apenas, por pedaços de vidro, tentando se passar por diamante ou pedras preciosas verdadeiras. O tempo dirá...

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