Opinião
As leis do esporte
Deve ser permitido que uma atleta transexual jogue na liga feminina de vôlei? Muitos argumentaram a favor alegando o respeito às diferenças e o combate ao preconceito, enquanto outros tantos foram contrários por razões biológicas ou, disfarçadamente, morais. O caso da jogadora Tifanny, porém, é apenas um exemplo da questão maior que trata da relação entre o esporte e as leis civis. Muitas regras adotadas no esporte para beneficiar o jogo e torná-lo mais justo e emocionante se chocam frontalmente com as concepções mais básicas das leis do ?mundo real?. Quando a própria Superliga de Vôlei Feminino criou um mecanismo que impedia as melhores jogadoras de atuarem todas nos mesmo time (e outras tantas ligas fizeram isso), violaram claramente regras trabalhistas internacionais, como a Lei Bosman, que acabou por proibir que ligas europeias limitassem a quantidade de jogadores estrangeiros em seus gramados. A Fifa pode proibir um jogador que já defendeu determinado País de defender outra seleção, mesmo que esteja devidamente naturalizado e carregue essa informação em sua carteira de identidade? Um atleta que tenha sido registrado com atraso, de forma que tenha oficialmente 16 anos, mas tenha biologicamente 21 anos, pode ser impedido de disputar uma competição sub-17? É justo que toda a delegação Russa de atletismo tenha sido proibida de disputar as Olimpíadas no Rio, mesmo sem haver provas de doping contra cada um dos atletas? Sob a ótica da Justiça comum tudo isso seria um absurdo. Mas é assim que o esporte funciona e, infelizmente, é o único jeito que pode funcionar. Para quem ama as liberdades individuais, como eu, é difícil de admitir, mas a justiça no esporte exige a total inversão do mais básico preceito de uma sociedade democrática, a predominância do indivíduo frente a coletividade. Quando Magic Johnson decidiu continuar jogando com HIV em tempos de total desconhecimento e preconceito contra a doença, a liga americana de basquete lhe deu total apoio. Seus companheiros, contudo, se recusavam a marcá-lo. Deixavam ele passar e fazer as sextas sozinho. Ele terminou tendo que se aposentar. Nem uma decisão judicial poderia obrigar as adversárias de Tifanny a enfrentá-la nem os espectadores a assistirem-na. É o público, afinal, queiramos ou não, quem vai decidir se Tifanny pode jogar. Nesse caso, o controle remoto tem mais poder que o martelo.