Opinião
Desrespeito à Língua Portuguesa
Não sou do tipo de professor que fique por aí procurando erros de português. Quando passeio ? ou quando leio ? não volto minha atenção para as normas da gramática; entretanto, como estou em contato com as regras gramaticais diariamente, meu subconsciente se manifesta sem muito esforço. É automático. Assim como sou tolerante com meus erros, também tenho tendência a ser compreensivo com a falta de atenção dos que se utilizam do idioma sem o devido cuidado. Ao perceber um erro, em geral o de natureza ortográfico (que é o mais comum), tento compreender o contexto que envolve o equívoco sobre o uso do idioma. O erro de natureza sociocultural, eu entendo melhor. Um ?Concerta-se roupas? seria logo entendido se fosse feito às pressas, na base do improviso e escrito por uma velhinha da periferia apenas para avisar os vizinhos de que ela estaria cosendo roupas para arrecadar um pouco mais de dinheiro. Ninguém bateria à porta da velhinha e lhe diria que a oração deveria ser escrita da seguinte forma: ?Consertam-se roupas?. Convivo sem problemas com as ?permissões? do idioma, sem o peso normativo ao qual me dedico em sala de aula. Não sou da turma do ?tanto-faz-como-tanto-fez?, pois tenho consciência de que toda expressão idiomática culta tem suas determinações e devemos respeitá-las. Também nunca permiti que meu lado carrancudo unilateral se manifestasse a ponto de eu não considerar o linguajar popular absolutamente válido. O mestre gramatical Evanildo Bechara defende o princípio de que todo falante deveria ser ?poliglota do próprio idioma?, quer dizer, expressar-se conforme a necessidade ou a situação: falar gírias quando o momento permitir, usar o preciosismo gramatical na hora certa ou até, de propósito, negligenciar regras e se concentrar apenas na comunicabilidade entre os mais próximos. Isso é dominar o idioma. Só não entendo o descaso com que algumas empresas (ditas conceituadas) tratam o idioma: com desleixo e sem a menor consideração à sintaxe, à concordância ou (pior) à ortografia. Outro dia, fui com minha filha a um supermercado comprar lasanha; quando cheguei ao setor de frios, me espantei com o abominável letreiro ?lazanha?. Terrível. Será que, num local tão grande e luxuoso, não existe um só responsável por esse tipo de correção? Ou o importante é só vender ? e o idioma que se dane? Isso é o tipo de erro que não se pode aceitar porque revela não só ignorância, mas também desprezo com um patrimônio valioso: a Língua Portuguesa. Um jornal assim anunciou a morte do maior humorista do País: ?Morreram Chico Anysio?. O ?verbo? no plural e o ?sujeito? no singular. Dentro do contexto, a homenagem ficou muito bonita. E esse efeito linguístico só ficou genial porque houve a transgressão à gramática. Morreu Chico Anysio e toda a sua trupe de personagens, por isso o verbo ficou no plural. Os princípios gramaticais ficaram genialmente em segundo plano (e não fizeram a menor falta). Respeitar o idioma é isso: obedecer a suas leis quando necessário; negá-las quando for possível.